Eduardo Pazuello deixa de ser interino e toma posse como ministro da Saúde

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16 de setembro

Interino desde a renúncia do médico Nelson Teich, que pediu demissão devido a conflitos com o presidente Jair Bolsonaro na condução da pandemia de Covid-19 no Brasil, o militar Eduardo Pazuello foi efetivado hoje como ministro da Saúde do Brasil. A cerimônia de posse aconteceu logo após as 17 horas e Pazuello já no início de seu discurso disse: "agradeço ao presidente da república pela confiança". O novo ministro seguiu depois sua fala exaltando a atuação do governo durante a pandemia, dizendo que após sua entrada na Saúde as pessoas haviam começado a ser orientadas a não "passar falta de ar" em casa. Ele também falou dos milhões que governo havia destinado à compra de vacinas para prevenção da Covid.

Já Bolsonaro começou dizendo que era menos complicado ser presidente do que ministro da saúde. "Não sou palpiteiro. Converso com meus ministros. Com o ministro da saúde anterior nada se decidia nas reuniões e precisávamos conter as mortes por Covid que se aproximavam". Ele também voltou a exaltar a cloroquina, dizendo que muitas mortes poderiam ser evitadas com o uso do medicamento - cuja eficácia nunca foi comprovada em diversos estudos feitos ao redor do mundo - dizendo também que determinar o uso da substância havia sido uma das primeiras decisões tomadas com Pazuello à frente da Saúde.

Bolsonaro também parabenizou o ministro da Economia, Paulo Guedes, por sua atuação durante a pandemia. "Parabéns, Guedes. Parabéns a nosso governo", disse. Ele continuou sua fala também criticando a imprensa, com a qual se indispôs - principalmente com a Rede Globo e seu Jornal Nacional e a Folha de São Paulo - durante a pandemia por esta retratar os altos números de contaminações e óbitos por Covid-19 no Brasil.

A cerimônia de posse foi transmitida ao vido no Twitter do Palácio do Planalto.

Brasil de Fato: com Pazuello na Saúde, número de mortes por covid no país aumentou quase 10 vezes

Quando o general Eduardo Pazuello assumiu interinamente o Ministério da Saúde, no dia 15 de maio, o Brasil registrava 14.817 mortos e 218.223 casos de Covid-19. Um dia antes de sua efetivação como chefe da pasta, o país chegava à marca de 132.006 mortos e 4.345.610 casos registrados do novo coronavírus, de acordo com dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). Os números representam quase 10 vezes mais óbitos e 20 vezes mais infecções.

Mesmo diante deste cenário, depois de quatro meses atuando como ministro interino, Pazuello foi efetivado no cargo nesta quarta-feira (16), às 17h no Palácio do Planalto.

Pazuello chegou ao governo para comandar as operações logísticas do ministério, ainda sob a gestão do oncologista Nelson Teich, a pedido do próprio presidente Jair Bolsonaro, de quem é amigo pessoal. Efetivamente, no entanto, tornou-se responsável por todas as decisões práticas da pasta.

De acordo com a infectologista Raquel Stucchi, integrante da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Brasil teve até agora “um total descontrole da pandemia, que praticamente seguiu o curso que ia seguir com ou sem um ministro da Saúde. Nós mantivemos em três meses, mais que isso, um platô alto de casos confirmados e óbitos”, ressalta Stucchi.

Stucchi diz receber com "preocupação e tristeza" a notícia da efetivação do ministro e considera que o fato de Eduardo Pazuello não ter formação na área da saúde reflete em seu comportamento à revelia da ciência no comando da pasta.

“A gente não percebeu um desempenho e acho que isso é compreensível porque ele não é da área mesmo. E recebemos [a notícia da efetivação] com muita preocupação e tristeza, porque temos sérios problemas de saúde, além da Covid, que precisam ser olhados à luz da ciência, mas até o momento, ele parece não se ater a este fato”, diz.

O senador e médico Humberto Costa (PT-PE) lembra que o Ministério da Saúde, já sob a gestão de Pazuello, “deixou de executar boa parte dos recursos autorizados pelo Congresso Nacional para a aplicação do enfrentamento à Covid-19”. De R$ 38,9 bilhões, apenas R$ 11,4 bilhões saíram dos cofres federais até 25 de junho, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). Os recursos gastos representam somente 29% da verba emergencial prevista para combater o novo coronavírus.

Tão logo assumiu o cargo interinamente, Pazuello nomeou nove militares para cargos técnicos do governo. Isso não representou, no entanto, um ganho em termos de qualidade de gestão e eficiência para a administração pública, conforme defende Costa.

“O Ministério da Saúde sempre teve uma estrutura formada por quadros especializados na área sanitária, gente da melhor qualificação possível, e boa parte dos dirigentes foram substituídos por pessoas que não têm qualquer vínculo com a área da saúde, especialmente militares que têm um outro tipo de formação”, afirma Humberto Costa.

Para o parlamentar, a militarização do governo, da qual a efetivação de Pazuello é mais um capítulo, se apresenta “muito mais no sentido de construir uma aproximação, uma base política para Bolsonaro”.

Brasil de Fato: narrativa contra os fatos

Diante do crescimento exponencial do número de mortes causadas pela doença sob sua gestão, na segunda semana de agosto, em uma das reuniões periódicas que a Organização Mundial de Saúde (OMS) realiza com os governos do mundo todo, Pazuello limitou-se a falar apenas sobre o número de casos de pacientes recuperados do novo coronavírus, sem tocar na quantidade de óbitos e casos confirmados. "Estamos entre os líderes mundiais em pacientes recuperados, o que evidencia o acerto das ações do governo brasileiro em resposta à pandemia", afirmou o então ministro interino. Pelos dados da própria OMS, o Brasil é o segundo país mais casos mortes e casos de infectados, em termos absolutos.

Em junho de 2020, Pazuello já havia demonstrado “descaso” com os fatos quando determinou a retirada do número acumulado de casos e óbitos do painel oficial de monitoramento epidemiológico da Covid-19, deixando somente os registros das últimas 24 horas. Com a repercussão negativa, principalmente entre cientistas e imprensa, o governo recuou.

Diferente dos outros dois ministros que ocuparam o cargo, Teich e Luiz Henrique Mandetta, o novo ministro mostrou total alinhamento à política do presidente em relação à pandemia.

A postura ficou evidente quando, logo que assumiu a pasta, mudou o protocolo do Ministério da Saúde a fim de permitir a prescrição de cloroquina para pacientes com sintomas leves da Covid-19, ainda que o medicamento não apresente nenhuma comprovação científica de combate à doença. Pelo contrário, há reações adversas, como problemas cardíacos.

A ausência de lastro científico também não impediu que a pasta distribuísse 100.500 comprimidos de cloroquina para indígenas, conforme informou o próprio Pazuello, em coletiva de imprensa, no dia 24 de julho.

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Fontes[editar]

Domínio Público Esta notícia é uma transcrição total da Brasil de Fato.
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