Covid-19: médicos brasileiros lançam nota contra "tratamento precoce" com cloroquina

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19 de janeiro de 2021

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Por Brasil de Fato

Médicas e médicos de Minas Gerais manifestaram, na última sexta-feira (15), sua forte discordância com a prescrição de remédios com eficácia não comprovada para o tratamento da covid-19. Por meio de nota, 641 profissionais afirmaram que estão se sentindo como “meros prescritores de placebos” e “charlatões” frente à orientação do Ministério da Saúde acerca de um equivocado "tratamento precoce".

Os profissionais se referem à prescrição de ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida, azitromicina, doxiciclina e outros medicamentos que não têm eficácia clínica comprovada e, assim, não traz nenhum benefício aos pacientes. Ao contrário, na opinião dos médicos, o uso dos remédios leva a população a uma falsa sensação de segurança e a um relaxamento nas medidas preventivas, como o uso de máscara e o distanciamento social.

A carta requer que o Conselho Federal de Medicina e os Conselhos Regionais de Medicina orientem os médicos a não prescreverem medicamentos que não têm comprovação científica.

Uso para casos leves, moderados e graves

A prescrição desses remédios, sem comprovação científica, é uma orientação do Ministério da Saúde, desde junho de 2020, para tratamento precoce em pacientes com sintomas leves, moderados ou graves. A orientação aconteceu no mesmo dia em que os Estados Unidos proibiram o uso do medicamento no seu país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também não recomenda.

Em Minas Gerais, conforme explica o médico Jader Campomizzi, a detecção do coronavírus têm acontecido na sua maioria com diagnóstico clínico, ou seja, dado pelo médico conforme os sintomas, visto que os testes estocados pelo Ministério da Saúde têm demorado a chegar. Assim, muitos profissionais acabam “constrangidos” a utilizar os medicamentos já nessa fase precoce da doença, ainda com sintomas leves e que podem inclusive não serem positivados como covid.

Uma vez que o médico prescreve os remédios, o paciente recebe a maioria deles no próprio hospital ou posto de saúde e é instruído a toma-los em casa.

O médico Jader Campomizzi ressalta que esses, como qualquer medicamento, possuem seus efeitos colaterais negativos, e além disso não apresentam comprovação de que realmente combatem a covid-19.

“Se for um caso grave, a pessoa é encaminhada a uma internação. Se for um quadro leve, o protocolo do Ministério da Saúde apresenta um kit de medicamentos que inclui cloroquina ou hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida para tomar em casa. Remédios que, usando ou não usando, a evolução da doença é a mesma”, diz Jader.

“Grito de alerta”

O documento assinado pelos profissionais mineiros afirma que este é um “grito de alerta” dos médicos e médicas, que estão na linha de frente do atendimento da população ou nas instituições de ensino. Ainda, criticam a atitude de entidades, conselhos, associações e sindicatos médicos que não estão se posicionando contra o uso de remédios sem comprovação.

Em último pedido, os profissionais da saúde pedem que outras entidades de saúde façam coro para defender o que, na opinião deles, verdadeiramente pode enfrentar a propagação do coronavírus: o distanciamento social; o auxílio aos vulneráveis; o investimento maciço e imediato no Sistema Único de Saúde; e investimento na capacidade brasileira de produção de vacinas.

A nota na íntegra

Nota Pública

À sociedade, aos médicos e médicas, ao CRMMG e ao CFM:

Uma tragédia se abate sobre o Brasil. Uma tragédia humanitária sem precedentes na nossa história. Já superamos 200.000 mortos. Milhões de infectados. UTI’s e leitos hospitalares no limite de suas capacidades, chegando ao absurdo do que está ocorrendo em Manaus, com a falta de oxigênio.

A este quadro dramático, soma-se o aumento da miséria e do desemprego. O aumento de famílias vivendo nas ruas é visível a todos. A fome é um espectro que ronda milhões de brasileiros. E qual a resposta deste governo a esta calamidade?

Frente a essa situação dantesca, o governo acaba com o auxílio emergencial, o que levará ao desespero aqueles que o têm como única fonte de renda para a sobrevivência. E, no enfrentamento da pandemia da covid-19, oferece tratamentos sem eficácia clínica comprovada.

Nós, médicas e médicos mineiros, que já estivemos na liderança de entidades médicas ou que estamos na linha de frente do atendimento à saúde da população ou no ensino médico, resolvemos dar nosso grito de alerta. Não podemos nos calar diante da omissão das nossas principais entidades, Conselhos, Associações e Sindicatos Médicos.

A Medicina é uma profissão a serviço da vida e da sociedade. Tem uma história de 2.500 anos, como Ciência e Arte. Como Ciência, a Medicina deve se ater às medicações comprovadamente eficazes. Ciência é a defesa de vacinação a todos, para controlar a circulação do vírus.

Afirmar, como faz o Conselho Federal de Medicina-CFM, do caráter não obrigatório da vacina, não é ciência. Reforça a política negacionista deste desgoverno.

E como Arte, médicas e médicos devem cumprir seu papel em saber informar aos pacientes que, infelizmente, ainda não há medicamentos com comprovação científica para o tratamento da covid19.

A aceitação pelas nossas lideranças do uso de medicamentos que, comprovadamente, não trazem benefícios, nem preventivo e nem curativo, é uma afronta a estes princípios. CHEGA!

Temos de dizer em alto e bom som: a prescrição de ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida, azitromicina, doxiciclina, e outros não traz NENHUM benefício aos pacientes.

Ao contrário, leva uma falsa sensação de segurança à população, com o consequente relaxamento nas medidas preventivas, estas sim, eficazes. A aceitação deste papel de meros prescritores de placebos nos nivela a charlatões. E nos tornam cúmplices de um governo de incompetentes, genocida. BASTA!

A literatura médica atual demonstra de maneira consistente a ineficácia destas drogas, além dos seus riscos. Médicas e Médicos, não aceitem este papel a nós reservado por este desgoverno! Entidades médicas, se posicionem claramente ao lado da Ciência e da Vida!

Os médicos, por meio do CFM e dos CRM (Conselhos Regionais de Medicina), devem ser orientados a não prescreverem medicamentos que não têm comprovação científica. Tal orientação e inibição dessas prescrições se sobrepõe a autonomia do profissional médico. A autonomia médica não é um aval para a antimedicina.

A prescrição destes medicamentos não é uso off-label: é anticiência, é charlatanismo. Esse cenário nos coloca como partícipes de uma política cruel, que finge que trata, enquanto deixa as pessoas morrerem.

Conclamamos que as Entidades Médicas busquem atuar junto às outras entidades de saúde, em defesa de uma política que verdadeiramente enfrente esta barbárie:

- Distanciamento social; auxílio aos vulneráveis; - Investimentos maciços no Sistema Único de Saúde, para recuperação imediata de sua capacidade de atendimento; - E investimentos maciços na capacidade brasileira de produção de vacinas.

Esta é a resposta a se esperar de quem tem compromissos com a Medicina e com a Vida.

Belo Horizonte, Minas Gerais, 15 de janeiro de 2021.

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