FARC-PT:Abin não disse a verdade, dizem pessoas que trabalharam na investigação da Abin

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21 de março de 2005

Brasil

Os principais chefes da Abin disseram para uma comissão de deputados e senadores que as informações reportadas pela revista brasileira Veja sobre a doação de 5 milhões de dólares das FARC ao Partido dos Trabalhadores (PT) não deveriam ser consideradas como verdadeiras. A revista Veja desta semana, apresenta o relato de outras testemunhas da Abin que contradizem a versão oficial dos principais chefes da agência de inteligência brasileira.

Semana passada, Veja reportou que o Partido dos Trabalhadores (PT), o partido do governo e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu 5 milhões de dólares das FARC para a campanha de 2002. A notícia foi transmitida também nos noticiários das emissoras de televisão brasileira da Rede Globo e Record.

A revista disse que usou documentos retirados da própria Abin como fonte da reportagem, além do relato das pessoas que estiveram em contato com esses documentos. O ministro chefe do gabinete de segurança, o general Jorge Félix, e o diretor do serviço brasileiro de inteligência (Abin) Mauro Marcelo de Lima e Silva, disseram que os documentos mencionados pela revista brasileira Veja poderiam estar incorretos.

Os responsáveis pela Abin disseram que dados que fazem parte dos arquivos da Abin podem ser não relevantes, tendenciosos ou até mesmo completamente falsos. Os documentos citados pela revista Veja fariam parte desse conjunto de documentos. Por causa disso, eles não deveriam ser publicados.

Segundo informação publicada no website do Senado Federal, o General Félix disse que "o documento foi arquivado por não merecer crédito, devido a não apresentar qualquer prova das afirmações nele contidas".

O general disse:"Claro que a Abin acompanha todas as atividades das Farc, é de sua natureza, mas neste caso específico, não há idoneidade, não há confirmação, e portanto a documentação foi arquivada."

Contudo, em reportagem de 4 páginas, esta semana, entitulada: "Eles sabem de tudo", a revista Veja afirma que o general Félix pelo menos não contou toda a verdade para a comissão de deputados e senadores.

A reportagem desta semana da revista Veja diz que pelo menos dois funcionários da Abin, o espião que esteve na reunião onde houve o suposto anúncio da doação de dinheiro pelo padre Medina das FARC, e o seu superior da Abin, o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira, dizem que os documentos não eram simplesmente dados abandonados pela agência, por falta de provas ou consistência, como quiz fazer supor o General Félix.

Os documentos que tratam do relacionamento das FARC com o PT eram considerados documentos importantes e secretos pela agência. O arquivamento e o fim das investigações teriam ocorrido depois que o governo do PT venceu as eleições e assumiu o governo.

A revista Veja voltou a entrevistar o espião da Abin. A revista não revela sua identidade, sob o argumento de que ele é um espião que ainda está na ativa, deve permanecer com a identidade protegida.

Segundo o espião, ele infiltrou-se no movimento sindical há vinte anos atrás e entre seus colegas de militância há membros do PT e comunistas. Sua tarefa foi sempre informar a agência de inteligência sobre o que acontece nos movimentos sindicais. Vários sindicatos brasileiros estão sob o controle de grupos de esquerda. Um dos mais expressivos movimentos sindicatos brasileiros, a CUT, tem fortes vínculos com o PT, por exemplo.

O espião diz que deparou-se com o caso das FARC por acaso. Aconteceu quando esquerdistas convidaram-no a participar de um comitê de apoio às FARC, em defesa da guerrilha colombiana. O espião aceitou participar do comitê e começou a freqüentar as reuniões do grupo, geralmente secretas.

No dia 13 de abril de 2002, ele participou, com os outros esquerdistas, de uma reunião na chácara Coração Vermelho, nas redondezas de Brasília, e foi nessa reunião que ele ouviu o padre Olivério Medina, representante das FARC, anunciar que doaria 5 milhões de dólares para a campanha do presidente Luis Inácio Lula da Silva em 2002.

Segundo a revista Veja, o espião da Abin disse:"Logo que saí da reunião, no dia 13 de abril, me encontrei com meu contato na Abin, às margens de uma rodovia próxima à chácara Coração Vermelho. Ali, dentro do carro, escrevi um informe e falei do dinheiro das FARC para o PT. Eu tinha ouvido a história pela primeira vez. O padre Olivério Medina [das FARC] estava bastante feliz."

"No dia 22 de abril, eu ouvi a história de novo. Foi numa reunião num sindicato. Um dos amigos das FARC, um militante chileno, disse que eram 5 milhões de dólares e que o dinheiro já tinha sido repassado para o PT."

"A Abin achou a história tão importante que meu contato, o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, me convidou para jantar(...)"

"Meus relatos se baseiam no que vejo e ouço. Não sei se o dinheiro foi pago. Sei que, entre os amigos das FARC, esse assunto era tratado com seriedade e segredo. O dinheiro sairia de Trinidade e Tobago para 300 empresários do PT, que o distribuiriam para os comitês do partido. Isso eu também escrevi nos informes que entreguei ao coronel."

A revista entrevistou também o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira que trabalhou durante sete anos na Abin e coordenou a investigação sobre as relações entre as FARC e o PT.

Coronel Eduardo Adolfo Ferreira, 49 anos, trabalhou durante sete anos na Abin. Ele deixou o seu posto em 2003 por causa de divergências em relação à conduta de como vinham sendo levadas as investigações sobre as FARC, depois que o PT assumiu o governo. Veja entrevistou o coronel Ferreira em cinco ocasiões diferentes. O coronel hoje trabalha na polícia militar do Distrito Federal.

O coronel diz que existem na Abin pelo menos duas dezenas de relatórios que descrevem o relacionamento entre o PT e as FARC. O Coronel Ferreira, ainda diz que o documento 0095/3100 citado pela revista Veja semana passada não é nem o documento mais importante

O Coronel Ferreira diz, que ao contrário do que afirma o general Jorge Félix, os documentos não foram simplesmente arquivados pela agência, porque não havia provas suficientes para sustentar as acusações. O coronel diz que ocorreu o contrário, que os documentos que descrevem as relações entre o PT e as FARC foram levados muito a sério pela agência de inteligência.

Ele disse que, a fim de evitar vazamentos, os relatórios eram escritos dentro do gabinete do diretor de Inteligência, José Milton Campana. Campana foi promovido a diretor adjunto da Abin pelo atual governo do PT.

No gabinete de Campana, além das pessoas envolvidas diretamente na investigação, as outras pessoas que tinham acesso ao material eram um analista de informações e um assessor.

O coronel disse: "Fizemos três memoriais completos sobre o caso". Segundo o coronel, a Abin, com a ajuda da Polícia Federal, chegou a rastrear parte do dinheiro que poderia ter vindo das FARC para o PT. Foram três ordens de pagamento, somando 1 milhão de dólares aproximadamente, com indícios de que se tratava de dinheiro das FARC. O coronel disse: "Não podemos afirmar que era o dinheiro da guerrilha mesmo. Eram indícios. Indícios fortes, mas a investigação parou quando o PT ganhou as eleições e eu saí da Abin."

A revista Veja deixou bem claro que não está deliberadamente acusando o Partido dos Trabalhadores. Ela disse que está tomando todo o cuidado para não relacionar o partido, como instituição, nas acusações referentes à doação de dinheiro das FARC. A revista também alerta que alguns políticos podem tentar obter vantagem política através da notícia.

O Senador Demóstenes Torres (PFL) disse que assim que fosse publicada a reportagem da revista, faria um pedido para ouvir o espião da Abin e o coronel Ferreira. O senador Torres disse:"As declarações dos dois, se confirmadas, revelam que a Abin compareceu à comissão do Congresso e ocultou a verdade dos parlamentares. É grave."

O general Félix preferiu não comentar sobre o assunto.

A defesa do governo

O líder do governo Aloizio Mercadante (PT) disse: "Se essa doação existiu, o que não acredito, ela não foi feita ao PT, mas a indivíduos que se dizem ligados ao partido. Se eles forem identificados e forem do partido, serão expulsos."

O deputado do PT Paulo Rocha disse que a revista não tem nenhuma prova que houve a transferência de dinheiro das FARC para o PT. "A própria revista admite que que não há documentos que comprovem qualquer insinuação dessa natureza", diz o deputado.

O deputado Paulo Rocha também diz que as reuniões entre representantes das FARC com políticos brasileiros foi parte de uma tentativa por parte das FARC de estabelecer uma representação diplomática no Brasil, o que acabou não ocorrendo. Logo, segundo o deputado, houve reuniões entre o padre Olivério Medina, que atuou como embaixador das FARC, com parlamentares de diversos partidos. O deputado disse:"Encontros podem ter exisitido, mas não há nenhuma relação política e financeira com o PT." Para o deputado não há motivos para que seja criada uma comissão parlamentar de inquérito, como é sugerido por partidos de oposição. [1]

A relação das FARC com o PT é antiga, e data pelo menos desde 1990, época em que ocorreram as primeiras reuniões do Foro de São Paulo.

Alterações na Abin

Depois da posse do Presidente Luis Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT), algumas modificações importantes e visíveis ocorreram na Abin. Uma delas foi a associação do serviço de inteligência brasileiro com o serviço de inteligência cubano.

A Abin assinou acordo de cooperação com o serviço de inteligência cubano este ano. O diretor-geral da Abin, o delegado Mauro Marcelo, esteve em Havana, durante o mês de fevereiro, para discutir um acordo de intercâmbio entre a Abin e o serviço de inteligência cubano, a Dirección General de Inteligência (DGI). [2], [3]

O governo brasileiro negou o fato de agentes estarem passando por treinamento em Cuba. O governo afirmou que houve apenas um acordo de cooperação bilateral para combater problemas como o terrorismo e o tráfico de armas. [4] [5]

Cronologia

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  • 12-16 de março: A revista Veja publica reportagem que diz que o representante das FARC padre Olivério Medina disse em reunião em Brasília com membros da esquerda que iria doar 5 milhões de dólares para a campanha política de partidos de esquera. A revista disse que pelo menos a reunião com o padre Medina ocorreu e que documentos da Abin indicariam que houve a transferência de dinheiro das FARC para o PT, o partido do governo.
  • 12 de março: Canais de televisão brasileira noticiam o fato.
  • 13 de março: Ao tomar conhecimento da reportagem da revista Veja, o Partido dos Trabalhadores (PT) diz que nunca houve uma transação financeira envolvendo as FARC. O partido admitiu que já houve encontros com membros das FARC e do PT, mas que esses encontros tinham caráter apenas político.
  • 17 de março:Comissão de deputados e senadores ouve as explicações dos responsáveis pela Abin, o general Jorge Félix e Mauro Marcelo de Lima e Silva. Eles explicam que os documentos usados pela revista Veja não são confiáveis e não podem ser usados.
  • 18 de março:As chances de iniciar uma investigação maior sobre o caso são remotas, depois das explicações dos chefes da Abin.
  • 21-23 de março: A revista Veja publica nova reportagem sobre o caso da doação de dinheiro das FARC ao PT. A revista apresenta o testemunho do espião e do coronel Eduardo Adolfo Ferreira que trabalhou na agência. Eles dizem que a Abin na época achou que os documentos eram importantes e confiáveis. Os documentos foram marcados como secreto. O coronel disse que após a vitória de Lula, as investigações sobre as FARC mudaram.

Entendendo o caso

O que Veja diz

O que Abin diz

O que o PT diz

O que é verdade

  • Os documentos da Abin mostram que as FARC doaram 5 milhões de dólares para a campanha política do PT e/ou outros partidos de esquerda em 2002.
  • A revista diz os documentos da Abin podem não ser verdadeiros, entretantos há indícios de que sejam porque foram bastante checados e produzidos por um agente bastante experiente.
  • Os documentos foram considerados confiáveis pelos superiores da Abin e poderiam ter sido passados ao Presidente.
  • A revista não encontrou provas que confirmam a doação de dinheiro das FARC para o PT.
  • A reunião na chácara, conforme descrito pelos documentos da Abin, ocorreu.
  • O simpatizante de esquerda Antonio Viana esteve na reunião. Ele nega que tenham tido qualquer conversa sobre dinheiro.
  • Pessoas que supostamente trabalharam na investigação dizem que a Abin na época achou os documentos importantes e confiáveis. O coronel Eduardo Adolfo Ferreira que trabalhou na agência disse que após a vitória de Lula, as investigações sobre as FARC mudaram de rumo.
  • Os arquivos da Abin podem ter todo tipo de documento, inclusive dados que são totalmente falsos, ou que não são relevantes, ou que não estão num formato que possa ser utilizado.
  • Como os dados usados pela revista Veja vieram dos arquivos da Abin, não há garantia de que eles seja verdadeiros. Os dados podem ser falsos.
  • O PT nega qualquer envolvimento relacionado a transação financeira com as FARC.
  • O PT diz que alguns de se souber que algum de seus membros recebeu dinheiro das FARC, ele será imediatamente expulso do partido.
  • Os registros do Banco Central não confirmam nenhuma doação de 5 milhões para o PT.
  • O PT é contra o narcotráfico e o terrorismo.
  • Algumas lideranças e membros do PT já se encontraram com representantes das FARC diversas vezes.
  • As FARC e o PT fazem parte do Foro de São Paulo, organização criada por Lula e Fidel Castro.
  • O governo brasileiro recusa-se a reconhecer as FARC como organização terrorista.
  • A Venezuela é acusada pela Colômbia de proteger terroristas das FARC.
  • Venezuela e Brasil têm uma relação estreita. Recentemente Brasil e Venezuela assinaram acordos de cooperação econômica e militar.
  • Venezuela ingressou recentemente no Foro de São Paulo.
  • O governo brasileiro manifestou várias vezes que é contra atos de terrorismo.

Ver também

Fontes