Revista descreve situação de maus-tratos em menores combatentes das FARC

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12 de julho de 2006

A Revista colombiana Semana trouxe uma reportagem sobre os maus-tratos a que são submetidos menores de idade recrutados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Dois computadores usados por lideranças das FARC, apreendidos depois de combates na costa e em Antioquia, estão de posse da Promotoria colombiana. Eles contêm registros não só sobre o recrutamento de menores, como descrevem com detalhes os maus-tratos a que eles são submetidos. Os piores castigos seriam aqueles dirigidos a meninas, que além da violência física e psicológica, sofrem com a exploração sexual.

A Semana teve acesso a esses registros, onde os chefes das Frentes 35 e 58 das FARC descrevem os castigos e outras anotações detalhadas sobre garotas menores de idade, antes e depois de elas ingressarem nas FARC. A revista conta a história de 10 dessas garotas, com idade entre 13 e 15 anos.

Segundo a reportagem, aquelas que não morrem nos combates são obrigadas a respeitar o regimento interno da companhia, do contrário são severamente punidas. Uma punição comum é subir e descer a montanha várias vezes ao dia para trazer lenha, outras vezes são forçadas a cavar trincheiras, carregar areia, etc. Em faltas graves as meninas podem ser levadas a fusilamento.

A revista conta a história de uma menina de 16 anos que foi obrigada a subir e descer uma montanha para buscar lenha 150 vezes, como punição por ter perdido um gorro. Uma outra teve que ficar amarrada por dois dias por causa do roubo de uma panela e bolsa de leite. Como castigo por ter mentido, uma garota foi obrigada a carregar areia, buscar lenha e cavar 15 metros de trincheira.

As menores, da mesma forma como os adultos, também são submetidas à humilhação pública durante os conselhos de guerra das FARC.

Algumas das garotas que entram para as FARC se transformam em "esposas" dos chefes. Há aquelas que desertam (e às vezes são perseguidas por isso), e outras que se suicidam. Todas elas são obrigadas a lutar na linha de frente durante um combate.

A Semana disse que no relatório Aprenderás a no llorar (Aprenderás a não chorar) emitido há 3 anos pela Human Rights Watch há a estimativa de que há 11 mil menores de idade recrutados por forças militares e paramilitares na Colômbia.

Segundo a Promotoria, menores que eram usados pelas forças de autodefesa, em número bem menor do que se supunha, foram desmobilizados, isto é, não mais tomam parte das ações desses grupos.

Entretanto, no caso das FARC, alega a Promotoria, a situação não melhorou, muito pelo contrário. Por causa da ofensiva do governo, as guerrilhas precisam de mais combatentes e isto estimula o recrutamento de menores.

Relato de uma garota que desertou

A Semana trouxe uma entrevista com uma jovem desertora das FARC chamada "Adriana".

No relato descrito pela revista, Adriana contou que ingressou nas FARC quando tinha 14 anos. Segundo Adriana, poucos meses depois de seu ingresso no movimento ela se transformou em "esposa" de outro guerrilheiro, 30 anos mais velho. O relacionamento entretanto teria durado pouco porque seu "marido" morreu num combate 3 meses depois.

Depois disso, conta Adriana, ela iniciou outro relacionamento com um rapaz da sua companhia, o que resultou-lhe numa doença venérea. A garota foi então acusada de espalhar a doença. Alguns companheiros chegaram a dizer que ela era uma "infiltrada" do inimigo. A garota teve sorte em não ter sido levada a julgamento, porém recebeu o castigo de carregar lenha, cinco vezes ao dia, durante 3 meses.

Após o castigo Adriana foi reincorporada à tropa. Iniciou então um novo relacionamento com outro guerrilheiro, conhecido como "Richard", cerca de 50 anos e chefe de uma companhia de 54 guerrilheiros.

Depois que converteu-se em esposa de Richard, Adriana passou a ter uma vida com mais regalias do que suas outras colegas. Como parte dessas regalias teve a permissão para portar uma arma melhor: um fusil M16.

A garota acompanhava seu marido Richard nos combates. Para não engravidar era obrigada a injetar um anticonceptivo, mesmo quando estava na linha de frente. Numa oportunidade um cerco feito pelos militares impediu que a droga chegasse. Por causa disso, a garota engravidou e mais tarde foi obrigada a abortar.

Quando fez 20 anos, com um filho rescém-nascido, e desconfiada de que seu companheiro Richard tinha morrido num combate, Adriana desertou.

Fontes