Jefferson diz para Folha de São Paulo que PT pagava mesada de R$ 30 mil a parlamentares em troca de apoio

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6 de junho de 2005

Brasil — O jornal brasileiro Folha de São Paulo publicou hoje uma matéria que relata que o deputado Roberto Jefferson, Presidente do PTB, partido aliado do governo brasileiro, disse em entrevista que o Partido dos Trabalhadores (PT) pagava uma mesada de R$ 30 mil a parlamentares. Em troca, os deputados beneficiados votariam a favor do governo nas votações do Congresso Nacional.

Roberto Jefferson é o Presidente do PTB, partido da base aliada do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Ele é acusado de ter participação num suposto esquema de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Uma gravação de vídeo mostra o ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, Maurício Marinho, durante uma suposta negociação de propina, mencionar o nome de Jefferson e insinuar que ele é um dos responsáveis pelo suposto esquema de corrupção. Jefferson também é citado pelo ex-presidente do Instituto Brasil de Resseguros, Lídio Duarte, numa outra reportagem da revista brasileira Veja, cujo áudio da entrevista foi gravado. Está em discussão no Senado e no Congresso Nacional se é possível ou não realizar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar todas as denúncias.

De acordo com aquilo que está escrito na reportagem do jornal Folha de São Paulo, Jefferson disse que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava mensalmente R$ 30 mil para deputados do Congresso Nacional em troca do apoio deles ao governo. Ele disse que tem conhecimento de que até o mês de janeiro, o dinheiro estava a ser entregue para representantes dos partidos políticos do Partido Progressista (PP) e Partido Liberal (PL). Jefferson disse que os líderes do PTB rejeitaram a oferta em 2003.

Segundo Jefferson a mesada (que ele chamou de "mensalão") era uma tática do partido: "É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder".

Jefferson também disse segundo a Folha:E eu passei a viver uma brutal pressão. Porque deputados do meu partido sabiam que os deputados do PL e do PP recebiam. As informações que eu tenho são que o PMDB estava fora. Não teve "mensalão" no PMDB.

Jefferson conta que procurou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva que chorou ao ser informado. Jefferson disse que depois do encontro com Lula o pagamento do "mensalão" acabou: "Tenho a notícia de que a fonte secou." Ele também disse: Depois disso [da conversa com Lula] parou. Tenho certeza de que parou, por isso está essa insatisfação aí [na base parlamentar do governo]. Ele meteu o pé no breque. Eu vi ele muito indignado.

Sobre seu futuro político o deputado Roberto Jefferson disse: Serenamente eu já tenho o caminho traçado: não me preocupa mais o mandato, não vou brigar por ele. Só não vou sair disso como um canalha, porque não sou.

O atual prefeito do Rio de janeiro, Cesar Maia, já havia denunciado o suposto esquema de pagamento aos deputados segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo em 5 de abril de 2005. Segundo o jornal, Maia teria dito: "Não sei quem entrega essa mala de dinheiro para ser dividida entre grupos de deputados ou se ela vem do Planalto. Sei que, antes do PT, essa prática não existia".

Apesar de avisos, não tomaram-se providências, segundo Jefferson

Jefferson disse que conversou sobre o "mensalão" com outras pessoas do governo, entre elas os ministros José Dirceu da Casa Civil e Antônio Palocci da Fazenda, antes do encontro com Lula.e que mesmo assim o pagamento continuava.

Uma dessas pessoas, segundo Jefferson, seria o Ministro do Turismo (PTB) Walfrido Mares Guia, com o qual teria se encontrado e falado sobre o "mensalão". Walfrido teria respondido: Em hipótese alguma. Eu não terei coragem de olhar nos olhos do presidente Lula. Nós não vamos aceitar.

Depois Jefferson teria procurado o Ministro da Casa Civil José Dirceu e contado sobre o "mensalão". Jefferson relata da seguinte forma o seu encontro com José Dirceu:O Zé deu um soco na mesa: "O Delúbio está errado. Isso não pode acontecer. Eu falei para não fazer". Eu pensei: vai acabar. Mas continuou.

Jefferson disse que avisou também o deputado Iris Simões (PTB-PR). Segundo Jefferson:E eu pedi ao deputado Iris Simões (PTB-PR) que dissesse a ele: se fizer, eu vou para a tribuna e denuncio. Morreu o assunto.

Outro membro do governo que foi avisado sobre o "mensalão" foi o Ministro da Integração Nacional Ciro Gomes. Ele teria respondido:Roberto, é muito dinheiro, eu não acredito nisso.

Jefferson procurou também o Ministro da Comunicações Miro Teixeira e o lídero do governo na câmara Aldo Rebelo (PCdoB):Aí fui ao ministro Miro Teixeira, nas Comunicações. Levei comigo os deputados João Lyra (PTB-AL) e José Múcio. Falei: "Conte ao presidente Lula que está havendo o "mensalão'". Nessa época o presidente não nos recebia. Falei isso ao Aldo Rebelo, que então era líder do governo na Câmara.

Roberto Jefferson conta que avisou o Ministro da Fazenda Antonio Palocci:Disse ao ministro Palocci: "Tem isso e é uma bomba".

A opinião do governo

Integrantes do governo brasileiro disseram que serão investigadas todas as denúncias de corrupção e que aqueles que forem realmente culpados serão punidos. Eles também dizem que a CPI está a ser usada pela oposição para obter vantagens políticas nas próximas eleições.

Os líderes do PT na Câmara dos deputados disseram numa nota distribuída a parlamentares do partido:

Quando propõe uma CPI para investigar a corrupção nos Correios, a oposição não está interessada em apurar fatos, mesmo porque estes fatos já estão sendo apurados pela Polícia Federal. Seu objetivo é criar um palanque e antecipar o debate eleitoral.

O Ministro do Controle e da Transparência, Waldir Pires disse para a Agência Brasil em 3 de junho que acredita que as supostas irregularidades nos Correios começaram em governos anteriores ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele disse: Esses assuntos todos são velhos. O presidente da República quando tomou conhecimento das denúncias determinou a demissão do diretor [Maurício Marinho] dos Correios, foi instaurado o inquérito criminal na Polícia Federal e estamos fazendo uma auditoria especial.

O Ministro Waldir Pires disse que o governo está a apurar as denúncias nos Corrreios:Nós estamos procedendo a auditoria rigorosa em todos os setores dos Correios vinculados aos contratos e em todos os departamentos que tenham interesse nisso.

Pires atribui a grande quantidade de denúncias de casos de corrupção ao fato de o governo do Presidente Lula estar empenhado em combatê-las. Ele disse:

Quando um país decide combater a corrupção, como é o caso do Brasil, a população toma conhecimento de que ela existe. Quando você tem um país fechado, controlado por uma oligarquia ou uma ditadura, nada se diz, nada se faz, tudo é absolutamente escondido da população. A nossa política é de abrir completamente e de fazer um trabalho articulado com todos os órgãos capazes de somar suas competências para trabalhar contra a corrupção.

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