Governo da China protesta contra o leilão das duas peças chinesas na França e impõe sanções à Christie’s no território chinês

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27 de fevereiro de 2009

Pequin, China


O governo da China condenou ontem o que chamou de "venda ilegal" de duas raríssimas estatuetas de bronze chinesas do Século XVIII em Paris, capital da França. Em retaliação pelo leilão, impôs alguns limites para a exportação de obras chinesas à casa de leilões Christie’s, sediada na capital francesa.

“Condenamos o leilão, que é ilegal. A Christie's assumirá toda a responsabilidade por essa ação e seus resultados”, advertiu a Administração Estatal de Patrimônio Cultural, centrando seu protesto na casa de leilões, organizadora do evento. Segundo o órgão estatal chinês, o fato “terá uma grave influência para o desenvolvimento da empresa na China”.

Ao site do jornal Diário do Povo, o órgão chinês disse que o leilão, dá “um tapa na cara do espírito dos tratados internacionais relevantes”. Além disso, o ato fere “um consenso internacional que estabelece que relíquias devem voltar ao seu país de origem.

As peças (uma cabeça de coelho e uma cabeça de rato) pertenciam à coleção particular do estilista francês, morto no ano passado, Yves Saint Laurent e de seu companheiro, o empresário Pierre Bergé, e foram leiloadas anteontem, na capital francesa, por 15,7 milhões de euros (cerca de R$ 47 milhões) cada uma.

O governo chinês vinha pedindo a restituição das peças, que foram saqueadas do Palácio de Verão, em Pequim, em 1860, por soldados britânicos e franceses.

Em um comunicado divulgado ontem, o órgão do governo chinês responsável pela administração de obras e monumentos históricos disse que se "opõe, com firmeza, à venda de qualquer objeto cultural retirado ilegalmente do país" e garantiu que o leilão terá sérias consequências para o desenvolvimento da Christie's, a casa de leilões que realizou a venda, na China.

O órgão diz ainda que tentou, sem sucesso, convencer a casa de leilões a suspender a venda e garantiu que vai continuar fazendo de tudo para obter as peças de volta.

A Christie's afirma que as esculturas foram compradas legalmente por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé e manteve o leilão.

Entre janeiro e este mês, a China tentou evitar o leilão das duas esculturas históricas, mas a Justiça francesa também rejeitou uma demanda de suspensão do leilão.

Já o governo francês afirmou que até o momento não foi oficialmente comunicado de nenhum procedimento oficial para a restituição das peças por parte do governo chinês.

Na França, a Associação para a Proteção da Arte Chinesa na Europa (APACE) chegou a entrar com uma ação em um tribunal de Paris pedindo a suspensão da venda, mas a Justiça francesa autorizou o leilão na última segunda-feira.

Antes do leilão, Pierre Bergé chegou a declarar que devolveria as peças ao governo chinês, caso Pequim "passasse a respeitar os direitos humanos e a liberdade no Tibete " e recebesse o Dalai Lama, que vive exilado na Índia.

Sanções

Ontem, Pequim advertiu a Christie’s de que a transação afetará gravemente o desenvolvimento da empresa na China e como “medidas de represália” pela venda de duas estátuas de bronze, decidiu impor sanções da leiloeira no território chinês.

Em comunicado, a leiloeira Christie’s reagiu alegando que a atitude chinesa é pouco habitual e que a venda foi legal. A leiloeira lamentou que o governo chinês tenha anunciado “medidas de represália” e que “a Christie’s respeita todas as leis internacionais e locais” e tem por hábito “cooperar com as alfândegas e os responsáveis oficiais nos casos em que surgem questões sobre a propriedade legal ou o patrimônio”.

No caso das duas peças desta colecção, «os direitos de propriedade legal foram claramente confirmados», acrescentou.

Histórico

O incidente promete acirrar ainda mais as já tensas relações diplomáticas entre França e China. As relações andam estremecidas desde a passagem da tocha olímpica por Paris, marcada por manifestações pró-Tibete e anti-governo chinês no ano passado.

As críticas do governo chinês se tornaram ainda mais virulentas após o encontro do presidente francês, Nicolas Sarkozy, com o Dalai Lama, em dezembro do ano passado, durante uma cerimônia com personalidades que receberam o prêmio Nobel da Paz, na Polônia.

Na época, Pequim chegou a convocar o embaixador francês e a cancelar, como protesto, sua participação em uma cúpula com a União Européia, marcada para a França.

A China invadiu o Tibete em 1950, e afirma que a região é parte integral de seu território.

A polêmica sobre obras e peças provenientes de outros países que fazem hoje parte do acervo de museus europeus não é nova.

Em novembro do ano passado, o governo francês restituiu a seu proprietário um quadro do pintor Henri Matisse que havia sido roubado por oficiais nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

No total, o leilão da coleção particular de Yves Saint Laurent, falecido em 1º de junho do ano passado, e Pierre Bergé, arrecadou 373,5 milhões de euros (cerca de R$ 1,13 bilhão), um recorde mundial.

Fontes