Prisão de chefe paramilitar na Colômbia causa controvérsia

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17 de junho de 2005

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A prisão de Diego Fernando Murillo, conhecido como Dom Berna, um dos principais chefes das Autodefesas Unidas de Colômbia (AUC), desatou uma forte controvérsia na Colômbia, porque ao invés de ficar preso num cárcere, Murillo se encontra numa casa de campo na localidade de Pedras de Valencia, Córdoba, no noroeste do país. Segundo a Promotoria Geral da Nação há provas suficientes para processá-lo pelo assassinato de um deputado.

O alto comissionado de paz, Luis Camilo Restrepo, explicou num comunicado que as autoridades terão de manter o senhor Murillo Bejarano, em sua condição de desmobilizado, conforme definido pelo governo desde o dia 31 de maio, sob vigilância da força pública e a disposição da justiça. Para consolidar o processo de paz com as autodefesas, o governo considera conveniente manter a condição de desmobilizado do senhor Murillo Bejarano, a fim de tornar efetivo seu compromisso de desativar a totalidade das estruturas que operam sob seu comando.

Estava previsto que Murillo assistiria nesta quarta-feira à desmobilização de 425 paramilitares da frente Heróis de Tolová, ato que ocorrerá na vereda A Rússia Oito, do município de Valencia, Córdoba.

Dom Berna, o número 3 das AUC e que participa do processo de paz entre o movimento armado e o governo de Colômbia, esteve foragido da justiça durante alguns dias no mês de maio passado, depois de escapar da zona de Santa Fé de Ralito, Córdoba, quando foi ordenada sua captura, devido à morte de um deputado. Quatro dias depois, Murillo se entregou ao diretor da Polícia Nacional, Jorge Daniel Castro, perto de Santa Fé de Ralito, depois de que Luis Carlos Restrepo, alto comissionado de paz, negociou com os demais chefes paramilitares que participam do processo de desmobilização.

Iván Roberto Duque, conhecido como Ernesto Báez, porta-voz das AUC, tinha pedido a retirada da ordem de captura de Murillo: Ele (Murillo) está disposto a responder à justiça só dentro das garantias que são oferecidas a um negociador das AUC. Pedimos que a ordem de captura seja suspensa pois não se trata de um cidadão comum e ordinário, mas um negociador de paz. Em 28 de maio, Dom Berna se rendeu.

Dias mais tarde, soube-se que Dom Berna não seria levado para a prisão, mas que seria mantido sob custódia das autoridades numa localidade ao norte do país. O anúncio, feito pelo próprio presidente Álvaro Uribe Vélez, desatou fortes críticas no processo de paz. Uribe, por sua vez, defendeu o acordo:

Meus detratores não precisam recordar-me lições de transparência. Aqui temos duas coisinhas que se chamam 'amor a Colômbia' e 'uma maneira transparente e firme de proceder' (...) Entendem minha mensagem?, sabem a que me refiro?. Que esqueçam [os críticos] que esse lugar vai ser uma segunda Catedral. Esse lugar terá o controle total da força publica, e do Inpec [Instituto Nacional Penitenciário e Carcerário], e estará aberto desde o princípio à vigilância nacional e internacional.

A Catedral foi o lugar de reclusão, do traficante de drogas morto pela polícia Pablo Escobar. Na Catedral ele desfrutou de tratamento especial depois de ter negociado sua rendição com o governo do então presidente César Gaviria Trujillo, no começos dos anos 90.

Dia 9 de junho, um promotor dos EUA solicitou a extradição de Dom Berna, que deve responder por acusações de conspiração para a introdução de toneladas de cocaína em território americano. Meses antes, os americanos tinham solicitado também a extradição do então número 2 das AUC, Salvatore Mancuso. No entanto, devido às salvaguardas de que desfrutam os comandantes do movimento anti-comunista e contra as FARC e porque ele encontrava-se em negociações com o governo, Uribe decidiu não extraditar nenhum chefe das AUC. No passado, Dom Berna colaborou na operação policial que terminou com a morte de Pablo Escobar, em dezembro de 1993. Ainda que seja considerada uma organização ilegal (e até terrorista pelo governo dos EUA), as AUC "ajudam", de forma indireta, o governo colombiano no combate ao exército auto declarado comunista das FARC.

Tanto o processo de paz com os paramilitares como a lei de "justiça e paz", que deve regulamentar a desmobilização dos membros das AUC e que está a ser debatida no Congresso da República, suscitaram fortes questionamentos de organizações humanitárias e de opositores de Uribe. Desde antes de começar seu mandato, o presidente colombiano foi vinculado em repetidas ocasiões com as AUC.

Fontes