PMDB anuncia saída de base de apoio à Dilma Rousseff

Origem: Wikinotícias, a fonte de notícias livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Agência Brasil

29 de março de 2016

Por aclamação, o Diretório Nacional do PMDB decidiu hoje (29) deixar a base aliada do governo da presidenta Dilma Rousseff, que durou menos de cinco minutos. A decisão foi anunciada pelo senador Romero Jucá (RR), vice-presidente da legenda, que substituiu o presidente nacional do partido, Michel Temer, vice-presidente da República. O PMDB também decidiu que os ministros do partido deverão deixar os cargos. Participaram da reunião mais de 100 membros do Diretório Nacional do PMDB.

Líderes do PMDB consideram o dia 12 de abril como data limite para a entrega dos cargos do partido no governo, inclusive os sete ministérios, na véspera, Henrique Eduardo Alves pediu demissão do Ministério do Turismo. “Existe uma discussão sobre dar um prazo, acho até que é uma coisa razoável, ministro não pode sair batendo portas deixando assuntos importantes do ponto de vista do interesse público nacional por resolver”, disse o presidente da Fundação Ulisses Guimarães, Moreira Franco.

Mesmo com o rompimento, os líderes do PMDB disseram que o partido não será oposição, mas que vai adotar uma postura de independência. “Nós seremos independentes. O que for de interesse do governo e importante para o Brasil nós iremos votar. Se for algo que nós não concordemos, nós diremos claramente, não teremos mais atrelamento à base do governo”, disse o senador Romero Jucá, vice-presidente do PMDB.

Reunião

A reunião em que o PMDB decidiu romper com o governo federal teve a participação de mais de 100 dos 127 integrantes do diretório. A resolução aprovada estabelece a “imediata saída do PMDB do governo, com a entrega dos cargos em todas as esferas do Poder Executivo Federal”. Quem contrariar a decisão, ficará sujeito à instauração de processo no conselho de ética do partido.

Embora a decisão seja de abandonar imediatamente os cargos ocupados pelos peemedebistas no governo, a cúpula partidária acenou em avaliar cada caso e até permitir uma saída gradual. “A partir de agora, o PMDB não autoriza ninguém a exercer, em nome do partido, nenhum cargo federal. Se, individualmente, alguém quiser tomar uma posição vai ter que avaliar o tipo de consequência, o tipo de postura para a sociedade”, disse Jucá. “Para bom entendedor meia palavra já basta, aqui nós demos hoje uma palavra inteira”.

A crise econômica foi apontada como maior justificativa para o afastamento do governo. Apesar de ainda permanecer com a vice-presidência e de comandar até o início da semana sete ministérios, o PMDB culpou o PT pela recessão enfrentada no país. “Estamos indo para o terceiro ano de recessão e os milhões de brasileiros que conquistaram posições sociais estão perdendo essas posições e o governo não apresenta uma alternativa”, justificou Franco.

Um dos principais defensores do fim da aliança com o PT, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), foi um dos primeiros a chegar à reunião, que durou cerca de cinco minutos. Conforme já estava previsto, a ala do partido contrária ao desembarque, incluindo os seis ministros, não compareceu ao evento. O presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), que ontem se reuniu com Temer para fechar os detalhes do desembarque, também não esteve presente.

Reações

A presidenta Dilma Rousseff cancelou a viagem que faria nesta semana para Washington, nos Estados Unidos, onde participaria da Cúpula de Segurança Nuclear. O encontro ocorre nas próximas quinta (31) e sexta-feiras (1), e o embarque da presidenta estava previsto para a manhã de quarta (30). A equipe de suporte que sempre viaja antes da presidenta não embarcou ontem, e hoje recebeu o aviso de que não haveria mais a agenda. Caso Dilma participasse do compromisso, para o qual são esperados outros chefes de Estado, o vice-presidente Michel Temer assumiria a Presidência, como é praxe nas viagens internacionais do presidente da República.

O ministro-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência da República, Jaques Wagner, disse hoje (29) que pelo Palácio do Planalto recebeu com naturalidade a notícia do rompimento do PMDB com o governo. Para o ministro, o anúncio chega em "boa hora" e abre a oportunidade de "repactuar" o governo com outras forças políticas. Segundo ele, ao mesmo tempo em que perde um "parceiro importante", a presidenta Dilma Rousseff já promove conversas no sentido de abrir espaço para novos aliados.

Jaques Wagner informou que a presidenta terá uma reunião nesta noite com o núcleo duro do seu governo, da qual poderá participar o ex-presidente da República e indicado para chefiar a Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva, e que até sexta-feira (1º) deve haver novidades sobre o que chamou de repactuação.

Segundo Wagner, a agenda do governo nesta nova fase será conquistar votos para conseguir barrar o processo de impeachment que tramita no Congresso Nacional contra Dilma, classificado por ele de golpe. ” Impeachment sem causa é golpe ”, disse. Sobre quais ministros da legenda devem permanecer no governo, Jaques Wagner disse que não sabe ainda, e que a presidenta não conversou com ele após a decisão do PMDB.

"Depende dos ministros e depende da presidenta. Ela está analisando a decisão. O que para nós interessa é que se abriu espaço para uma repactuação do governo. Alguns já falam até internamente em uma nova fase do governo, em que sai um aliado de longa data, [e] mantêm-se outros aliados. Acho que foi bom que [o PMDB] tomasse [a decisão] antes da votação [do processo de impeachment] porque dá oportunidade para a presidenta Dilma repactuar o governo, não apenas para a votação que aproxima, mas repactuar seus dois anos e nove meses que lhe restam", afirmou.

Em discurso na tribuna do Senado, o líder do governo, senador Humberto Costa (PT-PE), criticou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a quem chamou de facínora por ter aberto o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Costa voltou a dizer que o processo em curso é um golpe. “Quando falei de golpe é sobre esse movimento puxado pela grande mídia, puxado pela oposição, e do qual, lamentavelmente, figuras do PMDB, em especial o vice-presidente da República, que é diretamente beneficiário disso, passam a fazer parte. Nós, aliás, esperamos que o PMDB, conforme sua tradição histórica, conforme sua posição democrática, até que se prove o contrário, não embarque plenamente nem definitivamente nisso”, disse, minutos antes de o partido decidir, por aclamação, sair do governo.

O senador Romero Jucá (PMDB-RR), considerado um dos quadros mais importantes do PMDB no Senado, rebateu, dizendo que os petistas deveriam parar de atacar o partido. “O PT tem a opinião de quem está perdido. Não é agressão que vai resolver o momento de dificuldade do país, nem político, nem econômico. Acho que o PT deveria tentar se reconstruir, redirecionar a ação do governo”, afirmou Jucá, que é vice-presidente do PMDB.

De acordo com o senador peemedebista, a decisão de hoje não significa que o PMDB tenha passado a ser oposição ao governo da presidenta Dilma, apenas que adotou postura de maior independência. “O PMDB tentou ajudar esses anos todos, mas a situação social e política chegou a um nível de agravamento – com as pessoas perdendo os empregos todos os dias – que o PMDB não pode mais concordar com isso. Então o que nós fizemos? Nós não fomos para a oposição. Nós deixamos a base do governo, entregamos todos os cargos e deixamos de estar alinhados com o PT. Agora, nas votações, o que considerarmos que for bom para o país, nós vamos votar a favor, o que consideramos ruim, vamos votar contra”, disse Jucá.

Para o senador Edison Lobão (PMDB-MA), que chegou a ser ministro de Minas e Energia no governo da presidenta Dilma Rousseff, o fato de os peemedebistas terem decidido por sair do governo por aclamação foi “a bandeira de não expor os companheiros”. Questionado sobre a entrega dos cargos no governo, Lobão disse que a primeira preocupação é com a saída dos sete ministros do PMDB que ainda estão nos postos, na Esplanada dos Ministérios. Segundo ele, é preciso dar um tempo para que eles deixem seus cargos. “Não podemos exigir que os ministros saiam no mesmo dia. A decisão do partido foi clara, mas precisamos dar um tempo para que a sucessão se dê em ordem e não em desordem”, afirmou.

Composição

Mas não é só no governo federal que os números peemedebistas são expressivos. Na Câmara, 13,25% dos deputados em exercício pertencem ao PMDB. Já no Senado, 18 dos 81 senadores são filiados à sigla. Ou seja, dos 594 parlamentares no Congresso Nacional, 86 são peemedebistas, o que equivale a 14,47%.

Nos estados, o PMDB elegeu sete governadores, dentre as 27 unidades da federação - o que equivale a 25,92% -, além de 996 prefeitos e 142 deputados estaduais.

Agenda positiva

O ministro disse estar "confiante" de que essa será uma oportunidade para uma "boa caminhada" de Dilma, e citou alguns eventos que vão constar na agenda do governo para superar a crise, como o lançamento da terceira etapa do Programa Minha Casa, Minha Vida, uma "pauta extremamente positiva" para a indústria e a construção civil.

De acordo com ele, a presidenta também poderá receber representantes de artistas e intelectuais que têm programado manifestações contrárias ao impeachment para os próximos dias. "Hoje há um grande ponto de unidade de segmentos cada dia mais numerosos no Brasil, que é luta pela democracia e a manutenção do nosso roteiro de constitucionalidade. Na nossa opinião, esta é a bandeira maior: a luta pela democracia", afirmou.

Na semana passada, a presidenta Dilma recebeu dezenas de juristas no Palácio do Planalto, e fez um dos seus discursos mais inflamados, classificando o processo de impeachment de golpe e dizendo que jamais renunciará.

Repercussão internacional

A crise politica brasileira, agravada pela saída, nesta terça-feira (29), do PMDB do governo, foi manchete na imprensa argentina. “Brasil: o PMDB, do vice-presidente Michel Temer, rompeu com o governo de Dilma Rousseff”, anunciou o jornal La Nacion em sua versão online.

O jornal Clarin deu um título parecido: “Crise no Brasil: o partido do vice rompeu com o governo”. Já o Pagina 12 estampou: “Uma saída anunciada rumo ao golpe branco contra Dilma”.

O site de noticias Infobae informou que a presidenta Dilma Rousseff cancelou a viagem aos Estados Unidos, onde participaria de uma reunião sobre segurança nuclear, por causa da crise politica. Ela “não quer ceder temporariamente a Presidência a seu novo inimigo”, acrescentou, numa referência ao vice-presidente Michel Temer, do PMDB.

O governo argentino tem repetido que apoia uma solução “institucional” para a crise política brasileira e que deseja um desfecho “rápido”, já que o Brasil é o maior sócio da Argentina, responsável por 40% de seu comércio global.

Histórico

A saída do PMDB do governo é considerada o fato mais grave a contribuir a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff desde o início da crise política. No mesmo dia em que o partido anuncia a decisão, que já era esperada nos últimos dias, o relator do processo de impeachment na comissão especial, deputado Jovair Arantes (PTB-GO), comunicou que deve antecipar seu parecer para que a votação ocorra o mais rápido no plenário da Câmara dos Deputados. Ontem, Henrique Eduardo Alves deixou o comando do ministério do Turismo.

Fontes

Compartilhe
essa notícia:
Compartilhar via Email Compartilhe via Facebook Tweet essa reportagem Compartilhe via WhatsApp Compartilhe via Telegram Compartilhe via LinkedIn Compartilhe via Digg.com Compartilhe via Reddit.com