Jornalistas cabo-verdianos acusam ministro de interferência na empresa pública

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Agência VOA

Governo e directores de órgãos dizem não haver interferências, oposição critica ministro.

3 de março de 2017

A Associação Sindical dos Jornalistas de Cabo Verde (AJOC) reagiu “com estupefacção” aos posicionamentos recentes do ministro da Cultura e Indústrias Criativas (MCIC), Abrãao Vicente, acerca da empresa pública de rádio e televisão (RTC).

Num comunicado divulgado na noite de quinta-feira, 2, a AJOC acusa o membro do Governo, com a tutela da comunicação social, de “ingerência” na RTC.

Em causa, duas publicações recentes do ministro no seu perfil pessoal no Facebook.

Na terça-feira, 27, Vicente publicou um conjunto de fotografias da visita que fez à régie da TCV, com um comentário que desagradou aos jornalistas: “o outro lado do MCIC: RTC, canal público de comunicação social. Estamos prontos para levar a todos os cabo-verdianos o grande desfile de Carnaval, em directo de Mindelo”.

Frente a reacções de alguns jornalistas também nas redes sociais, o ministro retorquiu escrevendo que “é normal a resistência a mudanças, mas creio que a nova geração de jornalistas que brevemente entrará no mercado saberá compreender e acompanhar melhor os novos tempos da empresa (…) O futuro é dos que inovam e nunca dos conservadores”.

Liberdade e respeito pela profissão

A presidente da Associação dos Jornalistas de Cabo Verde (AJOC) considera que a liberdade de imprensa não deve ser condicionada pelo ministro e por ninguém, porquanto os ganhos conseguidos são fruto do contributo de todos os cabo-verdianos.

"Nós repudiamos esta tentativa de condicionamento e intervenção da comunicação social", sublinha Carla Lima, adiantando que a associação sindical defende "o direito de os jornalistas fazerem o seu trabalho de acordo com o código deontológico da profissão e com toda a independência e liberdade".

Lima apela à união de todos "na defesa intransigente de uma imprensa plural e livre", contribuindo para consolidação da democracia e desenvolvimento do país.

Ela lembra que o ministro deve apenas traçar as linhas de política para a comunicação social e nomear os membros do Conselho de Administração para gerir a empresa detentora da rádio e televisão públicas, cabendo exclusivamente aos directores dos mesmos órgãos a responsabilidade na gestão de conteúdos informativos e de programação.

A AJOC diz esperar que Abrão Vicente entenda qual é o seu papel enquanto ministro e "deixe de interferir no trabalho dos órgãos e dos jornalistas".

Directores de órgãos garantem liberdade

Em reacção ao comunicado associação sindical dos jornalistas, o director da Televisão de Cabo Verde (TCV) disse não haver interferência nem da Administração da empresa, nem do ministro e reiterou que no dia que isso acontecer colocará o lugar à disposição.

António Teixeira escusou-se a comentar as mensagens do ministro Abrão Vicente e exortou a AJOC "a fazer um inquérito sobre possíveis interferências e os jornalistas condicionados a denunciarem".

Também o director a Rádio de Cabo Verde (RCV), Humberto Santos, afirma que "os jornalistas da estação têm total liberdade e que não há interferência na gestão de conteúdos na emissora pública".

Já o presidente do PAICV, o principal partido da oposição, solidariza-se com a AJOC e critica a atitude do ministro.

Oposição critica

Janira Hoppfer Almada afirmou que o governante feriu "um dos princípios fundamentais do Estado de direito democrático, que é a liberdade de imprensa e o respeito pelos actores da comunicação social".

Por isso, entende que o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, deve responsabilizar o governante, considerando ser "inadmissível gerir as pastas nas redes sociais".

Do lado do Governo, o ministro da Presidência do Conselho de Mnistros, Elísio Freire, garante que o Governo "está concentrado em trabalhar para que haja condições que permitam a comunicação social desempenhar as funções de forma livre, sem pressão de ninguém".

Sem tecer considerações sobre as declarações do ministro da Cultura e Indústrias Criativas, Freire disse que "acredita no trabalho realizado pelos jornalistas cabo-verdianos".

A VOA não conseguiu ouvir Abraão Vicente por se encontrar fora do país.

Fontes

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