Exposição retrata cotidiano de favelas cariocas nos anos 60

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Agência Brasil

27 de setembro de 2015

O cotidiano e como era a estrutura das favelas cariocas nos anos 60 podem ser conhecidos na exposição fotográfica O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo de Anthony Leeds, que ficará aberta até 10 de janeiro de 2016, no Museu da República, no Catete, zona sul do Rio de Janeiro.

As fotos são resultado do trabalho do antropólogo norte-americano Anthony Leeds, que viveu com a esposa, a cientista política Elizabeth Leeds, nas comunidades do Tuiuti e do Jacarezinho, na zona norte do Rio, na década de 60.

As imagens, algumas inéditas, mostram quando as favelas foram removidas de áreas consideradas nobres pelo setor imobiliário na época para conjuntos habitacionais, entre elas, a Macedo Sobrinho, no Humaitá, zona sul da cidade, em que os moradores foram transferidos para conjuntos habitacionais em áreas mais distantes, como Vila Kennedy e Cidade de Deus, na zona oeste.

Também estão expostos manuscritos de Anthony Leeds. “Espero que vejam as fotos com a sensibilidade com a qual elas foram tiradas”, disse Elizabeth Leeds, mulher do antropólogo.

A mostra ocupa dois espaços, um nos jardins e outro no casarão do Museu da República, e foi inaugurada na terça-feira (22) com a presença de Elizabeth Leeds, que cedeu o acervo do casal para a Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

O casal permaneceu no Brasil até 1969 e deixou o país por causa da Regime Militar, retornando em meados dos anos 80. Anthony Leeds morreu em 1989. Elizabeth continuou as pesquisas com apoio da Fundação Ford. Entre 1997 e 2003, passou a ajudar projetos de segurança pública e de reforma da polícia. e participou da fundação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com sede em São Paulo. Atualmente, ela é presidente de honra do fórum.

Antes da inauguração da mostra, a cientista política participou do primeiro dia de debates do seminário sobre o trabalho do casal, evento promovido pela Fundação Oswaldo Cruz, pelo Ministério da Cultura e Museu da República.

No seminário, Elizabeth Leeds disse que os problemas de segurança pública e de violência estão relacionados à falta de políticas públicas nas comunidades e a forte presença da polícia. Para a cientista, a presença ostensiva de policiais é negativa, citando como exemplo casos de tiroteio entre a polícia e traficantes que acabam atingindo moradores e inocentes.

Na avaliação de Elizabeth Leeds, as unidades de Polícia Pacificadora (UPP) são uma tentativa de mudar esta situação, mas ainda não conseguiram aproximar a população e a polícia.

A exposição trata da Rocinha, considerada a maior favela da América Latina, e que, desde 20 de setembro de 2012, tem uma UPP. De acordo com o censo demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a comunidade abriga quase 70 mil moradores. Os conflitos entre a polícia e traficantes ainda são frequentes no local.

“Hoje em dia o que chamam de polícia de proximidade não é próxima. Em algumas favelas se deu mais ou menos bem, onde as favelas são menos complicadas, mas a atuação da polícia nos complexos tem sido muito negativa”, disse a cientista política em entrevista à Agência Brasil.

De acordo com Elizabeth Leeds, a implantação das UPPs não foi acompanhada de políticas sociais nas favelas. “Beltrame [José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio de Janeiro] sempre fala disso, que a polícia sozinha não faz. Sem o lado social das políticas públicas acho que não vão conseguir”.

Em julho, a Polícia Militar anunciou que as 55 unidades operacionais da corporação serão transformadas em batalhões ou companhias de Polícia de Proximidade até 2018. As 38 UPPs, instaladas até o momento, seguirão a mesma estratégia.

Em relação à questão habitacional, a cientista política afirmou que as atuais políticas falham ao transferir os moradores das favelas para locais sem estrutura e vulneráveis à ação de milícias e do tráfico. “Hoje em dia tem o Minha Casa, Minha Vida cometendo os mesmos erros [do passado], colocando as pessoas para fora [com as remoções para lugares mais distantes] sem apoio e sem infraestrutura, especialmente na área de segurança, [para os lugares] que são invadidos pelas milícias e o tráfico. As pessoas são mais uma vez abandonadas”, disse.

Em julho deste ano, moradores do projeto instalado em Guadalupe, na zona norte do Rio, relataram a presença de milícias e de tráfico de drogas no local. Na ocasião, o governo federal informou que os próximos empreendimentos do programa em todo o país terão de passar por uma análise da Secretaria de Segurança Pública local para serem aprovados e construídos.

As secretarias terão de verificar se os locais destinados aos imóveis têm estruturas de segurança pública, como delegacias.

Estudos sobre as favelas[editar]

Para o sociólogo e colaborador do Conselho Técnico Nacional do Comércio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, José Arthur Rios, que trabalhou com o casal e também participou do seminário, os estudos sobre as favelas do Rio de Janeiro precisam ser atualizados. “Está faltando um estudo dos complexos de favelas [que atualmente integram até 16 comunidades diferentes, como a Maré] que são uma realidade nova. É a Rocinha, é a Maré, é o Alemão, não é mais a favela que nós estudamos”, destacou.

O sociólogo, autor de uma pesquisa que completou 50 anos em 2015, disse que as comunidades são conjuntos de favelas, mas não se transformaram em bairros, como defendiam os pesquisadores nos anos 60 e 70. “O bairro era o que desejávamos, era a nossa utopia, era a comunidade bairro, mas o que está se formando é uma outra coisa que exige outros instrumentos e outro tipo de administração, inclusive com o componente da violência e da insegurança”, acrescentou.

De acordo com a antropóloga Yvonne Maggie, que fez dois cursos com Anthony Leeds, um deles durante a Regime Militar, a presença do norte-americano provocou uma mudança na antropologia brasileira, por estimular a pensar sobre a diversidade.

“Ele influenciou muito os estudos de favela, não somente do ponto de vista quantitativo e estatístico, mas do ponto de vista daquela pessoa que vive e está ali, você descreve, você reconhece. Ele fez uma antropologia na cidade e não da cidade. Isso é muito importante para a gente ver como esta ideia de cidade partida é complicada", ressaltou.

O seminário e a exposição foram incluídos na programação dos 450 anos do Rio de Janeiro. No encerramento dos debates, foi relançado o livro A Sociologia do Brasil Urbano, considerado um clássico dos estudos urbanos no país, de autoria do casal Leeds.

A vice-diretora de pesquisas de educação e divulgação científica da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Nísia Trindade Lima, disse que o livro trata de questões atuais. “Principalmente as questões de poder que se configuram na cidade em vários níveis, trabalhando muito os moradores das favelas, como espaço de poder e de disputa, mas, também, como espaço de protagonismo dos moradores”.

Fonte[editar]

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