Egito elege novo presidente

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26 de maio de 2014

Egito

O Egito vai às urnas nestas segunda (26) e terça-feira (27), em uma eleição já praticamente definida. Abdel Fattah al-Sisi, ex-comandante do exército egípcio e responsável por destituir o então presidente Mohamed Morsi do poder em 2013, é o franco favorito. Sisi chegou ao centro do poder pelas mãos do próprio Morsi, que o nomeou comandante das Forças Armadas do Egito, mas, com o descontentamento da população e do próprio exército em relação às ações da Irmandade Muçulmana, partido de Morsi que liderou a revolução de 2011, o general se tornou o grande responsável pela destituição do presidente islamita e formação de um governo interino.

Na sua campanha eleitoral, ele disse que a economia não poderá se recuperar antes da “erradicação dos terroristas”, como se refere aos integrantes da Irmandade Muçulmana, e afirmou que serão necessários 25 anos para instaurar “uma verdadeira democracia”. Na eleição atual, existem apenas dois candidatos, incluindo o esquerdista Hamdin Sabahi, terceiro mais votado em 2012. Muitos duvidam das intenções democráticas de Sisi: "O Egito já voltou a um estágio de autoritarismo tão severo quanto o dos piores dias de Mubarak”, diz Nathan Brown, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade George Washington e especialista em Egito, nos EUA.

De fato, a Irmandade Muçulmana foi banida, assim como seu braço político, o Partido Liberdade e Justiça. Os islamitas são cada vez mais perseguidos e foram criadas leis que limitam o direito a protestos. Cerca de 15 mil pessoas, entre integrantes do grupo e apoiadores, foram presas e mais de mil foram condenadas à morte por crimes cometidos durante o governo do presidente islamita. Segundo Brown, o presidente islamita “perdeu parte da elite política por ser insuficientemente consensual, boa parte do aparato do Estado resistiu a seu governo e realizou esforços para desacreditá-lo e derrubá-lo; e o principal, ele fez promessas extravagantes que não conseguiu cumprir – na verdade, a economia piorou durante seu mandato”.

Sisi tem o apoio de parte da classe média e é especialmente popular entre as classes mais baixas. Ele também tem o voto das mulheres. “A Irmandade Muçulmana queria que elas ficassem em casa, não tivessem papel ativo, e por isso não era popular entre as mulheres. O fato é que ele vai ter uma maioria confortável, mas é impossível dizer qual será a participação”, diz o egípcio especialista em ciência política Mustapha Kamel Al-Sayyid, professor da Universidade do Cairo.

Para Aurel Braun, professor visitante de relações internacionais e política na Universidade Harvard, o grande erro da Irmandade foi ter usado a democracia em favor de seus próprios objetivos, fazendo com que a população se sentisse traída, além de não reconhecer que foi retirada do poder por desejo popular. “Houve o senso de que Morsi via a democracia como uma plataforma para seus interesses. Criou-se uma política de exclusão e repressão no país, e não de inclusão, que era o objetivo da revolução. A Irmandade Muçulmana se tornou uma organização fascista disfarçada de religião.”

Para Fábio Metzger, professor e analista de relações internacionais que estudou a história recente da Turquia e do Egito em seu doutorado, há um forte risco de que o país possa voltar a ter um governo autocrático e centralizador como o de Mubarak. “Eu sinceramente acredito que isso possa acontecer, não tanto pelo Sisi, mas pela forma como a polícia egípcia age, pela forma como os aparelhos do estado se sustentam", explica. E ainda: "A polícia é um aparelho sobre o qual a população local tem uma visão muito negativa, por ter sido um aparelho do regime. Essa é a questão. O Sisi vai fazer uso desse aparelho ou não? Com a Irmandade Muçulmana banida, ela tende a se radicalizar. Temo que ele vá fazer uso, mas espero que não faça”.

O egípcio Al-Sayyid tenta ser mais otimista. “Espero que o Egito não volte a ficar sob a ação de um ditador. O general Sisi prometeu manter a democracia, a constituição e as leis. Por enquanto, temos que ouvir o que ele diz e esperar o que ele vai fazer. Como ele tem um grande apoio entre a população, não vejo razão para se tornar um ditador.”

Fontes[editar]

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