A cultura do trote: uma nova visão sobre este rito de passagem

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O trote universitário é um tema que, ao vir à tona, costuma dividir opiniões. Criado na Idade Média e presente, atualmente, em universidades espalhadas por todo o Brasil, o trote é considerado um ritual de passagem que tem como intuito marcar o término da adolescência e o início da vida adulta, que terá a vivência em uma faculdade como um dos seus primeiros passos. Além disso, é o momento em que o jovem irá conhecer novas pessoas com quem compartilhará momentos e sentimentos variados nos anos a seguir.

Pensando nesta espécie de conceito do trote, deduz-se, então, que este deve ser um momento de alegria e diversão, que deixará marcas positivas para o resto da vida de cada jovem que passar por ele. Porém, não é sempre que isso acontece, e é esse o problema. Há muito tempo, todos os anos vemos serem noticiados casos de violência em trotes universitários. Casos em que alunos entram em coma alcoólico, sofrem violência física e psicológica, são sujeitos a atividades forçadas, sofrem com atos e palavras preconceituosas, entre outros. Por isso, tem sido cada vez maior o número de estudantes que não querem ir no primeiro dia de faculdade para não sofrerem o trote, pais que não querem que seus filhos compareçam a esse evento, pessoas que discutem se o trote deve ser proibido pelas universidades ou até mesmo por forças do Estado.

Para fazer frente a estes atos de violência, muitas faculdades e seus centros acadêmicos têm colocado em prática um novo tipo de trote, onde os alunos se divertem, conhecem melhor a faculdade na qual ingressarão e, até mesmo, praticam ações solidárias. Na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), por exemplo, o trote já não recebe mais este nome e é dividido em dois momentos diferentes. É o que explica Camila Lustosa, estudante do curso de Publicidade e Propaganda e participante da comissão organizadora do trote de 2016.

“Primeiro, nós nem gostamos de chamar de trote, chamamos de semana dos bixos. No dia em que o calouro vai fazer a matrícula é recebido com muita música, nós vendemos os kit bixos, que é um material todo personalizado com a identidade visual da recepção daquele ano, a gente pinta quem quer ser pintado e nos apresentamos mesmo, fazemos amizade. Tudo isso para tirar aquele medo de entrar na universidade e sofrer um trote violento, é um espaço para a entidade se apresentar pela primeira vez para o calouro e para a gente tentar mostrar o que achamos que é a ECA”.

Mas, mais uma coisa é interessante neste primeiro encontro entre veteranos e calouros da ECA. No local onde ocorre essa confraternização são espalhadas placas com o chamado “Disque Trote”, número de telefone que pode ser usado por um estudante para denunciar algum ato de violência que ele presencie durante sua recepção.

Segundo Camila, os membros da ECA são radicalmente contra qualquer ato de violência contra os calouros, mesmo aqueles que para muitos podem passar despercebidos: “Conheço muita gente que passou pelo trote em faculdades que têm a reputação de não aplicarem trote agressivo, mas que submete seus alunos ao cotonete de tinta, que é quando o veterano mergulha o cotonete na tinta e depois coloca no ouvido do bixo. Nós jamais aceitaríamos isso aqui na ECA”.

O exemplo do trote da Escola de Comunicação e Artes é positivo. Entretanto, ele não se repete em todas as instituições. Pedro Pannunzio, estudante da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC, conta que no ano no qual ingressou na faculdade, foram realizados dois trotes diferentes. Um deles foi organizado pela instituição e ocorreu dentro das dependências do campus: “na quadra da faculdade foi organizado um trote solidário. A gente ganhou uma blusa, eles pintaram nosso rosto com o nome do curso que cada um passou e a gente ficou na quadra fazendo atividade junto. Foi muito bom porque a gente conversava, foi uma forma fácil de entrosamento”.

Teoricamente, a solução encontrada para acabar com o trote tradicional violento teria sido efetiva, se não fosse por outro aspecto: os próprios alunos organizaram, no entorno da faculdade, o que pode ser considerado o trote tradicional: “as pessoas ficavam na rua, envolvia bebida, povo com roupa rasgada, café na cabeça, um trote considerado normal. A faculdade nem se responsabilizou”. Simultaneamente a esse, os alunos que se encontravam no trote oficial eram direcionados a um churrasco organizado pelos veteranos, evento que Pedro particularmente gostou, já que relata ter feito amizades com pessoas antes completamente desconhecidas.

O fato leva à reflexão sobre o real propósito do trote. Mesmo em eventos organizados de maneira responsável, onde é possível a integração e o oferecimento de um acolhimento respeitoso, os alunos insistiram em organizar paralelamente outra ocasião para se conhecer, mais suscetível ao erro. Já é tão enraizada a concepção de trote nas ruas com sujeira, consumo de álcool, alunos pedintes e atitudes humilhantes, que os alunos passaram a não considerar um trote legítimo aquele que não possui tais características.

A Faculdade Cásper Líbero, também em São Paulo, passou por situações constrangedoras e humilhantes no trote ocorrido no ano de 2014, que viraram notícia de âmbito nacional. Após o ocorrido, mudanças na aplicação do trote foram adotadas visando assegurar a comodidade dos alunos e os transeuntes da Avenida Paulista, que se incomodavam bastante com o evento anual. O uso de alimentos para sujar os calouros foi proibido, além da conscientização dos veteranos de sempre consultar as vontades dos novatos antes de fazer algo.

Quem liderou tal inovação foi o atual diretor da instituição, Carlos Roberto da Costa. Para ele, o evento do trote é relevante para a recepção dos calouros. Porém, a celebração se confunde com o bárbaro: “a gente passou por um processo de boas maneiras, aprendemos a ser discretos e educados. Todo esse processo é de enriquecimento humano”. Os estudantes têm a falsa noção de liberdade e se esquecem de que se encontram em uma instituição, sendo, para Carlos, uma falsa noção de poder.

Entretanto, isso não chega a impedir a liberdade dos alunos em manifestar e desenvolver suas ideias, em assumirem sua real personalidade. A faculdade é um local para isso, com restrições que cabem a qualquer espaço de convivência social. Costa não aprova a ideia da criação de leis para barrar o trote. Para ele, é necessário um aumento do nível intelectual dos jovens, que impeça estes de realizarem atos violentos e constrangedores: “precisamos ser mais inteligentes para não precisar de uma lei com o estado punindo”. Com o mínimo de educação, é possível conhecer o outro, se alegrar e conviver em harmonia.

Referências[editar]

Transição para a maturidade - Victor Gabriel Rodríguez

É preciso abolir essa prática de tortura - Antonio Almeida e Oriowaldo Queda