Valdemar Costa Neto disse à Época que Lula sabia sobre negociações entre PT e PL

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O ex-deputado e Presidente do PL Valdemar Costa Neto. Foto:Wilson Dias/ABr.

13 de agosto de 2005

Brasil

Numa edição antecipada, na sexta-feira (12), a revista brasileira Época trouxe uma entrevista com o ex-deputado e Presidente do Partido Liberal (PL) Valdemar Costa Neto. Nela ele afirma que o Presidente da República do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva sabia sobre as negociações envolvendo dinheiro entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Liberal (PL), organizadas pelo tesoureiro do PT Delúbio Soares e pelo deputado e ex-Ministro José Dirceu.

Valdemar Costa Neto renunciou em 1 de agosto de 2005, após ver-se envolvido e ser alvo de denúncias relacionadas ao escândalo do mensalão.

Em sua entrevista para Época, o ex-deputado admitiu ter recebido R$ 6,5 milhões do fundo irregular (caixa 2) do PT, como parte de um acordo em que o partido de Lula deveria entregar ao PL R$ 10 milhões.

A revista disse que a versão de Valdemar apresenta algumas contradições mas que explica como o empresário Marcos Valério supostamente operava o fundo irregular do PT.

Costa Neto disse que as negociações começaram em 2002. O PT estava a conversar com o PL para formar uma aliança na qual José Alencar entraria como vice de Lula. Segundo o ex-deputado, o acordo estava quase pronto quando o Tribunal Superior Eleitoral aprovou a regra da verticalização. Pela regra o partido político que fizesse uma aliança (coligação) com outro partido na eleição nacional para presidente, seria obrigado a mantê-la nos pleitos regionais. Se o PL fizesse uma aliança com o PT para a eleição a presidente da república, não poderia fazer alianças com outros partidos nas outras eleições locais, nos diversos estados brasileiros.

Uma outra lei obrigava todo partido político a ter pelo menos 5% dos votos, para beneficiar-se das verbas do fundo partidário. Com a regra da verticalização, e a impossibilidade de fazer outras alianças nos estados, Costa Neto avaliou que o partido seria muito prejudicado e dificilmente teria direito às verbas do fundo partidário.

Valdemar Costa Neto disse que explicou esse problema a José Dirceu: "Para isso, preciso de uma estrutura muito maior para segurar meu pessoal". O ex-deputado disse que Dirceu teria perguntado: "Mas quanto?", e ele teria respondido: "R$ 15 milhões, R$ 20 milhões". O acordo teria sido fechado em R$ 10 milhões, porém Costa Neto diz que recebeu só R$ 6,5 milhões. José Alencar teria recomendado que a doação fosse feita de forma legal. Costa Neto disse que Lula sabia sobre o acordo: "O Lula foi lá para autorizar a operação. O que ninguém esperava é que desse essa lambança".

Em sua entrevista para a Época, Valdemar explicou como ocorreram as negociações:

O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu comecei pedindo R$ 20 milhões para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão. Uma hora, o Zé Alencar entrou e falou: "E aí, já resolveram?". Eles [PT] achavam que iam arrecadar R$ 40 milhões. Eu falei: "Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo". Eles ameaçaram ir embora. O Lula mandou ligar para o [hoje é ministro] Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer "acabou". Eles batiam tanto o pé comigo que eu pensei "ô povo firme. Esses vão me pagar rigorosamente em dia". Daí chamei o Zé Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto. Falei: "Vamos acertar por R$ 10 milhões". Voltamos para a sala e avisamos: "Está fechado". Lembro ainda que o Zé Alencar falou "peça tudo por dentro."

Na entrevista, Valdemar disse que conheceu o empresário Marcos Valério através do tesoureiro do PT Delúbio Soares. Ele disse que cobrou o então Ministro José Dirceu várias vezes, reclamando que o dinheiro estava "vindo pingado, em conta-gotas". Segundo Costa Neto, Dirceu teria lhe tranqüilizado: "Calma que o Delúbio está providenciando o dinheiro para te pagar".

Costa Neto também disse que o dinheiro começou a ser recebido só a partir de 2003. Valdemar contou que Delúbio pediu a ele para que mandasse alguém buscar o dinheiro na empresa SMPB de Marcos Valério, e ele teria enviado o tesoureiro do PL, Jacinto Lamas. Ao retornar, Costa Neto disse que Lamas entregou-lhe um envelope com R$ 800 mil em cheques da SMPB para a empresa Garanhuns. Costa Neto conta que Delúbio Soares enviou um homem para trocar os cheques. Ele chegou uma hora depois com uma mala de rodas, cheia de dinheiro.

O Presidente do PL disse que o dinheiro não foi entregue a deputados e que ele foi usado para saldar dívidas de campanha política.

A entrevista completa de Valdemar Costa Neto pode ser lida no website da revista Época. Os assinantes podem ler a matéria completa e os não assinantes podem ver alguns trechos da reportagem (desde que se registrem gratuitamente no website). Trechos da entrevista foram publicados por alguns jornais e blogs (ver a seção "Fontes" abaixo).

Presidência responde

A respeito da reportagem publicada pela revista Época a Secretaria de Imprensa e Porta-Voz da Presidência da República. emitiu a seguinte nota:

A propósito de reportagem publicada na edição 378 da revista Época, cumpre esclarecer que, na campanha de 2002, os então candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e José Alencar participaram de conversações políticas com vistas à conformação da base partidária de apoio à chapa que terminou por vencer as eleições presidenciais daquele ano. Outros assuntos estiveram a cargo dos dirigentes dos partidos envolvidos na formação da aliança vitoriosa.

Brasília, 12 de agosto de 2005. Secretaria de Imprensa e Porta-Voz da Presidência da República.

Página Externa

Fontes