Vômito fossilizado revela o uso de alimentação por filtração em pterossauros há 110 milhões de anos
30 de janeiro de 2026
Em um estudo publicado na revista Scientific Reports, a primeira espécie de pterossauro filtrador dos trópicos é descrita a partir de um pedaço fossilizado de vômito que ficou armazenado em uma coleção de museu por décadas.
Há cerca de 110 milhões de anos, dois pterossauros do tamanho de gaivotas voavam sobre um rio ou lago e foram devorados por um dinossauro ou pterossauro maior. Quando o predador então passou pela região costeira da Bacia de Araripe, regurgitou os crânios do pterossauro devorado e quatro peixes que também foram consumidos.
"Foi muito inesperado, porque fósseis da região de Araripe são estudados há décadas e quase 30 tipos de pterossauros já haviam sido encontrados, nenhum deles filtrador. Não esperávamos encontrar uma nova família para aquela região", disse Rubi Vargas Pêgas, pesquisador de pós-doutorado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), no Brasil.
Pterossauros filtradores tinham dentes finos, semelhantes a cerdas, situados muito próximos uns dos outros. Eles usavam esses dentes para filtrar pequenos organismos, como crustáceos. Como resultado, eles estavam ligados a habitats de água doce.
"Portanto, era um ambiente cercado por outros que não estavam necessariamente preservados no registro fóssil. Essa espécie talvez nunca tivesse sido conhecida se não tivesse sido regurgitada em Araripe, conhecida pela preservação de seus fósseis", acrescenta Pêgas.
O vômito fossilizado mostrou sinais de desgaste nos ossos do pterossauro devido aos sucos gástricos do animal maior, assim como em quatro peixes preservados que podem ter sido consumidos logo após o waridza de Bakiribu.
Aline M. Ghilardi, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), estava interessada na orientação dos restos fósseis, que estavam todos na mesma direção. "As aves que comem peixes hoje engolem animais inteiros pela cabeça para evitar engasgar com nadadeiras. Quem comeu o Bakiribu e o peixe provavelmente fez do mesmo jeito, já que todos estão orientados na mesma direção", explicou.
O predador mais provável que consumiu pterossauros foi um espinossaurídeo, como Irritator challengeri. É um dos poucos peixívoros da região que também teria comido pterossauros, com um estômago grande o suficiente para acomodar os quatro peixes e Bakiribu. Outro predador poderia ter sido Tropeognathus mesembrinus, um grande pterossauro com envergadura de asas de até oito metros.
Bakiribu waridza pertence à família Ctenochasmatidae, e até hoje essa família só foi encontrada na Europa, Leste Asiático e sul da América do Sul (Argentina). Na árvore genealógica dos pterossauros, a nova espécie está entre a espécie argentina mais recente, Pterodaustro guinazui, e o gênero europeu mais antigo, Ctenochasma.
O fóssil foi encontrado no Museu Câmara Cascudo, na coleção UFRN. O estudante William Bruno de S. Almeida, supervisionado por Ghilardi, estava realizandoum levantamento dos peixes fósseis no museu quando encontrou o pterossauro.
"Peixes são organismos muito abundantes no registro fóssil de Araripe, o que talvez explique por que ninguém percebeu que entre eles havia um animal ainda desconhecido", disse Pêgas.
Quando Ghilardi percebeu que o fóssil era um pterossauro, eles entraram em contato com uma equipe de especialistas para examinar o espécime. Em poucos dias, eles já haviam escrito o primeiro rascunho do artigo científico agora publicado.
A rocha que continha o fóssil é composta por duas partes em imagem espelhada. Um foi doado ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens da Universidade Regional de Cariri (URCA) em Santana do Cariri, Ceará.
"Incorporamos um viés ético e decolonial neste trabalho. A transferência garante a preservação da peça em seu território de origem", concluiu Ghilardi.
Fontes
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