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Uma mancha salgada no fundo do Oceano Índico pode ter desacelerado o aquecimento global há 20.000 anos

De Wikinotícias

14 de fevereiro de 2026

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Por milhares de anos, o clima da Terra não era definido apenas pela atmosfera. Enquanto as geleiras avançavam e recuavam na superfície, algo muito menos visível acontecia vários quilômetros abaixo do nível do mar.

Na escuridão do Oceano Índico, uma massa de água extremamente salgada estava presa como uma cápsula do tempo. E esse detalhe químico quase invisível poderia ter feito a diferença entre um planeta que estava esquentando rapidamente e outro que ainda resistia à mudança.

A descoberta vem de uma pesquisa liderada por geocientistas marinhos da Universidade Rutgers, publicada na Nature Geoscience. Lá, a equipe encontrou evidências de que o fim da última era do gelo, entre 18.000 e 20.000 anos atrás, coincidiu com o aparecimento de uma "mancha de sal" originada nas profundezas do oceano.

Enquanto nos preocupamos com o ar, o verdadeiro estoque de carbono está na água. O oceano absorve a maior parte do CO2 do planeta e o armazena em suas profundezas como um cofre, impedindo que o calor saia do controle.

Durante períodos frios, como grandes eras glaciais, a chamada "esteira transportadora oceânica global" desacelera. As águas frias e densas do Hemisfério Sul afundam mais facilmente e armazenam grandes quantidades de carbono. Esse sequestro ajuda a manter temperaturas mais baixas em escala planetária.

O processo é fascinante: organismos marinhos capturam carbono da superfície e, ao morrerem, afundam junto com ele. Durante as eras glaciais, a circulação oceânica desacelera, especialmente no Hemisfério Sul. Isso permite que as águas profundas retenham esse gás por milênios, ajudando a resfriar o mundo.

No entanto, para que esse sistema funcione e para o carbono não "escapar" de volta para a atmosfera, não é suficiente para a água estar fria. A chave para essa estabilidade está na salinidade, que determina quão densa é a água e quão profundamente ela pode esconder seus segredos.

Por décadas, os cientistas suspeitaram que a salinidade das águas profundas estava ligada a mudanças no dióxido de carbono atmosférico ao longo dos ciclos glaciais. O que faltava era uma prova direta. Essa prova apareceu na forma de microfósseis.

A equipe analisou foraminíferos, organismos unicelulares do tamanho de um grão de areia cujas conchas preservam a química da água em que viviam. É uma forma de ler a memória do oceano em miniatura. Os sedimentos foram coletados na costa oeste da Austrália, na fronteira entre os Oceanos Índico e Austral, uma região estrategicamente importante para a circulação global.

Os registros revelaram algo inesperado: no início da última desglaciação, as águas profundas do alto Oceano Índico tornaram-se muito mais salgadas por vários milhares de anos. Não foi um pico isolado ou ruído estatístico. Era um sinal persistente, acompanhado por outras assinaturas geoquímicas que apontavam para uma origem profunda.

Essa massa de água hipersalina, mais densa que o normal, reforçou a estratificação do oceano. Simplificando, ele selou a porta. O dióxido de carbono permaneceu preso nas profundezas por mais tempo, e o planeta permaneceu mais frio do que estaria sem esse reforço químico.

Durante o auge da última era do gelo, há cerca de 20.000 anos, o oceano profundo armazenava carbono de forma muito mais eficiente do que faz hoje. Essa diferença ajuda a explicar por que as temperaturas médias globais foram significativamente mais baixas, mesmo quando outros fatores começaram a impulsionar o aquecimento.

Esse sistema, no entanto, não era eterno, sugere o pesquisador. À medida que o clima começou a mudar, a circulação oceânica acelerou. As camadas profundas começaram a se misturar, e a mancha salgada, que estava presa há séculos, começou a emergir.

Os dados mostram que esse aumento na salinidade coincidiu com um "envelhecimento" das águas profundas: um claro sinal de troca com massas mais antigas ricas em sal e carbono. De acordo com os modelos, parte dessa reorganização teria até influenciado o Atlântico, intensificando a formação de águas profundas e empurrando a circulação global para seu padrão atual.

O resultado era conhecido, embora não imediato: dióxido de carbono começou a ser liberado na atmosfera, o planeta aqueceu e a era do gelo ficou para trás.

Até agora, a história parece um capítulo do passado distante. O problema é que ela também fala com o presente. Hoje, os oceanos absorvem aproximadamente um terço das emissões de carbono geradas pela atividade humana. Eles são nossos maiores aliados na luta contra as mudanças climáticas. Mas aquela extensão profunda e salgada que ajudou a enterrar o CO₂ por milênios não existe mais.

Saber disso nos obriga a olhar para a escuridão das profundezas e nos ensina uma lição clara: o clima da Terra é um sistema de mecanismos finos e interconectados, muitos deles ocultos. Descobrir como eles funcionavam no passado é a única forma de prever o que pode quebrar – ou o que podemos quebrar – no futuro que estamos criando.