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Mudanças climáticas: onda de calor deixa 2.300 mortos na Europa

De Wikinotícias

11 de julho de 2025

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A recente onda de calor relacionada às mudanças climáticas que atingiu a Europa entre os dias 23 de junho e 2 de julho de 2025 deixou cerca de 2.300 mortos em 12 grandes cidades, segundo estudo coordenado por pesquisadores do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine. Outra pesquisa estima que as mortes por calor extremo podem ir para mais de 34 mil anuais apenas na Inglaterra e País de Gales.

A análise apontou que aproximadamente 1.500 dessas mortes, cerca de 65%, foram diretamente atribuídas ao agravamento do calor por conta das mudanças climáticas induzidas pela ação humana. Temperaturas em cidades como Paris, Madri e Milão chegaram a superar os 40 °C, com picos até 4 °C acima do que seriam em um planeta sem aquecimento global.

A maior parte das vítimas fatais era idosa, com mais de 65 anos, e muitos dos óbitos ocorreram de maneira silenciosa, sem grandes comoções públicas, diferente do que se observa em tragédias provocadas por enchentes ou incêndios florestais. Essa invisibilidade, alertam os cientistas, torna o calor um “assassino climático silencioso”, cuja letalidade é frequentemente subestimada pela opinião pública e pelos formuladores de políticas.

Enquanto os termômetros europeus sobem, os estudos projetam um cenário ainda mais dramático para as próximas décadas. Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS estima que as mortes por calor extremo podem saltar de cerca de 630 por ano atualmente para mais de 34 mil anuais na Inglaterra e País de Gales até a década de 2070, caso a temperatura média global atinja 4,3 °C acima dos níveis pré-industriais. Mesmo em um cenário mais otimista, com aquecimento de 1,6 °C e investimentos em adaptação, o número de óbitos ainda subiria para 4.600 por ano.

As recomendações dos cientistas incluem o redesenho urbano com foco no resfriamento das cidades, implantação de infraestrutura de ar-condicionado eficiente, como bombas de calor reversíveis, e proteção ativa de populações vulneráveis, sobretudo idosos, pessoas em situação de pobreza e com problemas de saúde preexistentes.

No Brasil, os efeitos do aquecimento global também já são visíveis e alarmantes. Relatório do WWF-Brasil aponta que o país tem aquecido acima da média global. Entre 1961 e 2020, o número de dias com ondas de calor passou de 7 para mais de 50 por ano em várias regiões, com temperaturas até 3 °C mais altas do que as históricas.

Além disso, dados da plataforma internacional PreventionWeb indicam que o Brasil registrou um aumento de 460% nos desastres climáticos entre 1991 e 2023, com perdas econômicas estimadas em R$ 5,6 bilhões a cada 0,1 °C de aquecimento global.

Esses eventos afetam de maneira desigual a população brasileira. Um estudo nacional com 14 regiões metropolitanas revelou que as mortes por calor são significativamente mais altas entre mulheres, negros e pessoas de baixa renda. Entre 2000 e 2018, cerca de 48 mil mortes foram atribuídas ao calor extremo, muitas delas concentradas em áreas com infraestrutura precária, falta de saneamento e pouca cobertura vegetal.

A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, enfrentou no verão 2023/24 uma onda de calor agravada pelo fenômeno El Niño e pelas mudanças climáticas. O episódio triplicou os riscos de mortalidade por calor na cidade. Com o avanço do aquecimento, segundo os pesquisadores, eventos com essa gravidade passarão a ocorrer com frequência de até uma vez a cada quatro anos se a temperatura global ultrapassar 2 °C.

Diante desse cenário, especialistas recomendam que o Brasil adote medidas urgentes de adaptação, incluindo o fortalecimento do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. Entre as ações sugeridas estão a ampliação de áreas verdes urbanas, revisão de códigos de construção, campanhas educativas sobre riscos do calor, disponibilização de centros de resfriamento em bairros vulneráveis e fortalecimento dos sistemas públicos de saúde e seguridade.

A crise climática já não é mais uma previsão de futuro, ela está entre nós, ceifando vidas e pressionando sistemas de saúde e infraestrutura. Como alertam os cientistas britânicos, adaptar-se deixou de ser opção, é questão de sobrevivência.