Exército do Sri Lanka avança dentro do território da guerrilha separatista dos tâmeis

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26 de fevereiro de 2009

Sri Lanka

O Exército do Sri Lanka entrou no perímetro urbano do último reduto da guerrilha tâmil, no nordeste do país e três divisões do Exército cingalês conseguiram entrar na cidade de Puthukudiyiripu, no distrito de Mullaitivu, e estão combatendo "perto do centro urbano", declarou por telefone na quarta-feira à Agência Efe o porta-voz militar Udaya Nanayakkara.

A guerrilha tâmil, os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), conta com 500 guerrilheiros experientes, além de recrutas temporários, mas enfrenta na cidade um contingente entre 12 mil e 15 mil soldados, estimou o porta-voz:


Quando a cidade cair, teremos que limpar de guerrilheiros as últimas áreas litorâneas, embora não possamos fixar um prazo para isso.
Udaya Nanayakkara, porta-voz militar


Os rebeldes separatistas tâmeis perderam, nos últimos meses, a maior parte de suas posições para as forças do governo cingalês e estão encurralados em uma faixa de terra de apenas 100 quilômetros quadrados no nordeste da ilha-país localizada no Oceano Índico. Analistas militares consideram que a derrota rebelde é praticamente irreversível e o governo insiste em que capturará em breve o pouco que resta dos territórios controlados pelo LTTE.

Carta

Em uma carta assinada na segunda-feira, dia 23, pelo líder político do LTTE, Balasingham Nadesan, dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; ao presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso; o secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon, e aos primeiros-ministros da Noruega e do Japão, a guerrilha oferece a possibilidade de trégua no Sri Lanka.

No entanto, Nadesan rejeitou as exigências internacionais para que os rebeldes deponham suas armas, descartando rendição e a renúncia às armas, sob a alegação de que elas são "o escudo protetor do povo tâmil e sua ferramenta de libertação política". Ele alegou ainda que os tâmeis sofrem "o pior genocídio do século XXI":


Estamos prontos para discutir, cooperar e trabalhar juntos em todos os esforços para obter um cessar-fogo imediato e trabalhar num acordo político.
Balasingham Nadesan, líder político do LTTE


Mas o pedido de cessar-fogo pela guerrilha foi imediatamente rejeitado pelo governo. O pedido da guerrilha, foi classificado como "divertidíssimo" pelo ministro da Defesa cingalês, Keheliya Rambukwella, na segunda-feira, dia 23. Segundo ele, a guerrilha LTTE (Tigres de Libertação da Pátria Tâmil) deve primeiro "saber o que é uma trégua para poder solicitá-la", em nota:


(O pedido) é divertidíssimo. O país e o mundo conhecem bem a natureza dos LTTE. É um ardil usado por eles durante duas décadas, quando estão a ponto de serem derrotados militarmente. Cada vez que estão à beira da derrota, pedem trégua.
Keheliya Rambukwella, Ministro da Defesa


Ao rejeitar a proposta de trégua, o governo cingalês qualificou a tentativa dos rebeldes como um último esforço "para salvar suas peles miseráveis". O presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, disse que seu governo não aceitará dos rebeldes nada que não seja uma rendição incondicional.

Segundo o governo cingalês, cerca de 42.000 civis tamil fugiram da zona do conflito, mas 70.000 estão ainda bloqueados na região, servindo "de escudos humanos" à rebelião.

Depois de mais de 25 anos de violência, a guerra do governo do Sri Lanka contra o movimento separatista dos tamil pode estar em seus estágios finais. Mas mesmo com o fim dos combates convencionais, a ira e o ressentimento devem persistir entre muitos dos tamil do norte, ira diante do que eles definem como décadas de marginalização pelas autoridades, e ressentimento pelo que definem como políticas educacionais discriminatórias e proibição do idioma tamil pelo governo dominado pela maioria sinhalesa, de religião budista.

Até que essas questões sejam tratadas, e a menos que as guerra termine de maneira equitativa, muita gente, tanto entre os tamil quanto entre os sinhaleses, diz temer que o conflito simplesmente mudará de forma, com uma nova geração dos tamil crescendo em meio ao descontentamento.

Velupillai Prabhakaran, o fundador e líder do movimento rebelde separatista, que ao que se sabe estaria no comando da resistência final contra as forças do governo. Há quem diga que Prabhakaran continua no comando e disposto a combater até o fim. Mas existem muitas outras teorias quanto ao seu paradeiro, entre as quais a de que ele teria encontrado refúgio no navio de um parente ou em um esconderijo na Malásia.

ONU

O adjunto de Ban Ki-Moon para os Assuntos Humanitários, John Holmes, exortou no sábado, dia 21, o Sri Lanka e os rebeldes tamil a evitar "uma batalha final sangrenta", manifestando a sua preocupação pelas dezenas de milhares de civis bloqueados na zona dos combates.

Em Nova York, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, conclamou na segunda-feira, ambos os lados a retomarem as negociações de paz e deplorou o crescente número de civis no conflito. Ban Ki-moon, voltou a sublinhar a urgência do fim das hostilidades no Sri Lanka e uma resolução pacífica do conflito à imprensa:


A ONU lamentou o número crescente de vítimas entre os civis afetados pelos combates intensos que opõem o governo aos rebeldes dos LTTE (Tigres de Liberação Tamil) há vários dias. [As Nações Unidas vão] apoiar firmemente uma suspensão dos combates para permitir a evacuação dos civis que tentam fugir do conflito. Há uma necessidade urgente de acabar com este conflito sem novas perdas inúteis de vidas humanas ou destruições da sociedade do Sri Lanka. As Nações Unidas apelam novamente a todas as partes para fazer sérios esforços com o propósito de uma discussão política para terminar com este conflito de maneira ordenada.
Ban Ki-Moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU)


Os apelos nestes últimos dias multiplicaram-se para que as partes cessem as hostilidades e ponham fim às exações contra os civis.

União Européia

Em Bruxelas, os ministros de Relações Exteriores da União Europeia (UE) defenderam um cessar-fogo imediato, mas conclamaram os rebeldes a "renunciarem ao terrorismo e à violência de uma vez por todas".

Human Rights Watch

O grupo Human Rights Watch (HRW) denunciou recentemente que mais de 2.000 civis morreram no Sri Lanka entre o fim de 2008 e o início de 2009 e acusou tanto o governo quanto os rebeldes de terem cometido crimes de guerra.

Histórico

Em 1972, Velupillai Prabhakaran fundou o grupo Exército de Libertação dos Tigres do Tamil Eelam (ELTTE) e desde então até hoje, é líder do movimento rebelde separatista, em resposta aos constantes discriminações e perseguições do governo sinhara budista conta tâmil hinduísta, passando a lutar contra o governo.

Prabhakaran e os Tigres do Tâmil começaram de fato a lutar em 1983, quando a guerrilha liderada por ele fez o primeiro ataque, numa emboscada que matou 13 soldados do governo na cidade de Jaffna, no extremo norte do país e de maioria tâmil. Após o ataque, ocorreram distúrbios de protestos de cingaleses contra os tamil, que causaram centenas de mortos. O ataque foi o estopim para o início da guerra. A guerrilha passou dominar partes do território de maioria tâmil.

Desde o começo dos combates, os Tigres do Tâmil vêm usando atentados suicidas, de efeito paralisante, e essencialmente aperfeiçoaram a tática em uma campanha impiedosa contra a polícia, as forças armadas e alvos civis. Esse tipo de ataque perverso seria usado anos mais tarde por terroristas árabes.

Um componente central desses ataques é o uso de mulheres como portadoras de explosivos. Foi à explosão de uma bomba levada por uma mulher tamil que assassinou o primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi em 1991. Dois anos mais tarde, outro atentado suicida dos Tigres do Tamil, de um terrorista de 14 anos, matou o presidente do Sri Lanka, Ranasinghe Premadasa.

Em 2002, o governo e a guerrilha chegaram assinar o cessar-fogo, quando a guerrilha desistiu lutar por um Estado tâmil independente e o governo suspendeu embargo às regiões dominadas por rebeldes, fornecendo energia elétrica e melhoria nas áreas devastadas. Ambos chegaram acordo de transformar o país em federação, o que na prática, seria autonomia no norte e nordeste. O governo pediu que em troca da transformação, a guerrilha deveria depor armas, mas a guerrilha se recusou o que provocou impasse nas negociações. Em 2003, a guerrilha se retirou das negociações feitas pelos diplomatas da Noruega, mas manteve o cessar-fogo. Mas em 2006, os combates recomeçaram quando a guerrilha voltou promover vários atentados e governo respondeu com a ofensiva do Exército que capturou áreas dos rebeldes.

Desde o início do conflito separatista, mais de 70.000 pessoas morreram em mais de duas décadas e meia de violência, nos combates entre a guerrilha tâmil e as Forças Armadas do Sri Lanka. Os rebeldes denunciam que são marginalizados há décadas por governos dominados pela maioria cingalesa do país.

Há numerosas informações sobre baixas civis na zona de combate. O governo diz 100 mil civis vivem no território defendido pelos rebeldes, mas as agências assistenciais estimam o total em 200 mil.

Fontes