Erro grosseiro do The New York Times alimenta polêmica sobre as fotos da guerra

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Os escritórios principais do The New York Times em Nova Iorque.

10 de agosto de 2006

Um erro grosseiro cometido pelo jornal The New York Times alimenta a polêmica em torno das fotografias do Conflito israelo-libanês de 2006 e da cobertura feita pela imprensa mundial.

A polêmica surgiu quando alguns weblogs de pessoas simpatizantes de Israel começaram a apontar o que seriam algumas aparentes inconsistências em algumas fotografias.

Em meio a essa polêmica, o fotógrafo libanês free-lancer Adnan Hajj foi demitido pela Reuters, que por sua vez retirou de sua base de dados pelo menos 920 de suas fotografias. O fotógrafo foi acusado de ter usado o programa Photoshop para manipular as imagens de pelo menos duas fotos.

Numa dessas fotos eram mostrados sinais de fumaça depois de um ataque da Força Aérea Israelense, e na outra era mostrado um caça israelense.

Não é raro fotógrafos usarem o Photoshop para melhorar as suas fotos, principalmente a cor e a iluminação. Entretanto, o seu uso indiscriminado e exagerado pode ser mal visto, principalmente quando há a suspeita de que ele alterou aquilo que foi realmente captado pelas câmaras do fotógrafo. A alteração indiscriminada de uma imagem pode originar acusações de que houve manipulação ou tendenciosidade.

Em relação ao The New York Times, a polêmica do momento não surgiu devido ao Photoshop, mas por causa da legenda de uma fotografia que segundo o jornal saiu equivocadamente publicada.

O jornal americano The New York Times publicou no seu website na internet em 27 de julho uma seção de fotografias sobre o conflito no Oriente Médio. As fotografias faziam referência a um local que foi atacado pela Força Aérea Israelense, em Tiro, no Líbano, no final do mês passado, em 25 de julho.

A fotografia polêmica (número seis do slide na internet) mostra um homem de calção, sem camisa e deitado, debaixo de escombros, com os braços abertos. Um outro homem de bigode e camiseta branca segura o punho e o cotovelo do homem que está deitado.[1]

A autoria da fotografia foi atribuída a Tyler Hicks, fotógrafo do The New York Times. A legenda para esta fotografia, que foi colocada pelo jornal na internet originalmente foi a seguinte:

"O prefeito de Tiro disse que nas áreas mais atingidas, corpos ainda estavam enterrados debaixo dos escombros, e ele fez um apelo aos israelenses para permitir que autoridades do governo tenham tempo para retirá-los. (Foto Tyler Hicks The New York Times)." [Texto original em inglês: The mayor of Tyre said that in the worst hit areas, bodies were still buried under the rubble, and he appealed to the Israelis to allow government authorities time to pull them out. (Photo Tyler Hicks The New York Times).]

Em meio à discussão em torno das fotografias da guerra feita por alguns weblogs de pessoas que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio, fotógrafos, e web-designers que usam o Photoshop, a fotografia de Hicks chamou a atenção de todos porque nela a suposta vítima aparece limpa, sem poeira no corpo, com exceção de um pouco de sujeira nas mãos, característico de alguém que carregou algumas pedras.

Pela lógica e à primeira vista, na suposição de que a vítima feriu-se no desabamento de um prédio durante o bombardeio israelense, seria de se esperar que ela estivesse totalmente coberta de poeira (veja por exemplo as fotografias das vítimas do ataque ao World Trade Center [2]). No entanto, a suposta vítima do bombardeio está livre de poeira, inclusive nos cabelos, e apresenta sinais de transpiração na testa e nos ombros.

Outra característica que chamou a atenção é que a fotografia lembra a Pietà de Michelangelo, uma obra de arte famosa que virou ícone do sofrimento humano e faria parte do inconsciente coletivo.

Em relação à semelhança com a Pietá, é possível dizer que houve uma coincidência. É possível também, embora mais difícil, explicar o motivo pelo qual a suposta vítima de desabamento não está suja de poeira.

Todavia, o que não se pode explicar é como pode aparecer numa foto alguém que morreu ou feriu-se gravemente num desabamento, aparecer em outra foto caminhando em pleno vigor, em meio aos escombros, ajudando outras vítimas.

No mesmo website do The New York Times, onde estão as fotografias de Hicks, uma pessoa com uma enorme semelhança com a suposta vítima do bombardeio aparece na seqüência de fotos com papel invertido: ao invés de vítima, em outras fotos a personagem da Pietá apareceria como colaboradora da equipe de resgate andando em meio aos escombros.

Pelas fotografias pode-se ver que a pessoa que anda entre os escombros não tem só grande semelhante física com a a suposta vítima em pose de Pietá, como a roupa é a mesma (um calção jeans rasgado). A semelhança se extende até o boné: nas cenas em que aparece a andar por entre os escombros a personagem usa o boné na cabeça, enquanto que na cena em que aparece como Pietá, o boné está debaixo do braço.[3]

Na fotografia número 2 do show de slides, a "Pietá" aponta para um escombro. Na foto 3, A "Pietá", em segundo plano, anda entre os escombros. Na foto 4, ela está perto de um homem que tentar apagar um pequeno incêndio.[4]

A versão do The New York Times

O jornal The New York Times disse que houve imprecisão na descrição da fotografia. A página da internet apareceu com a seguinte errata datada de 9 de agosto:

"Uma legenda para uma figura num slide show com áudio do dia 27 de julho sobre um ataque israelense a um edifício em Tiro, Líbano, imprecisamente descreveu a situação da figura. O homem representado, que havia aparecido em imagens anteriores ajudando nos esforços de resgate, ficou ferido durante o esforço de resgate, não durante o ataque inicial, e ele não foi morto. [Texto original em inglês: A picture caption with an audio slide show on July 27 about an Israeli attack on a building in Tyre, Lebanon, imprecisely described the situation in the picture. The man pictured, who had been seen in previous images appearing to assist with the rescue effort, was injured during that rescue effort, not during the initial attack, and was not killed. ] [5] (pode precisar de registro)

Segundo a errata: "A correta descrição era esta, que apareceu com aquela figura na edição impressa do Times: 'Depois de um ataque israelense ter destruído um edifício em Tiro, Líbano, ontem, um homem ajuda outro que caiu e se machucou'."

Na blogosfera uma das hipóteses consideradas pelos internautas foi a de que a fotografia teria sido uma encenação criada por pessoas simpáticas ao Hizbollah. O jornal não comentou sobre isso e resumiu a falha à legenda.

A fotografia do The New York Times foi reproduzida em jornais e revistas ao redor do mundo, acompanhada do erro.

No Brasil, por exemplo, a Revista Veja edição 1967, ano 39, número 30, datada como 2 de agosto de 2006, cujo título da capa é "Existe Guerra Justa?", traz a mesma fotografia de Tyler Hicks, ao lado de outras duas fotografias menores, tomando a largura total da página 91 e pedaço da página 90.

A legenda para a foto de Hick e para uma outra menor colocada pela revista foi a seguinte: "Sofrimento no Líbano - Os ataques aéreos israelenses foram mais letais no sul do Líbano, região onde xiitas são maioria. Em Tiro, o socorro à vítima de bombardeio (acima) e os destroços de escola religiosa mantida pelo Hezbollah (à esq.)."

Fotos de Adnan Hajj ainda podem ser encontradas na internet

As fotografias da autoria do fotógrafo libanês Adnan Hajj que foi dispensado pela Reuters ainda podem ser encontradas na internet.

Ao se efetuar uma busca no Yahoo é possível encontrar uma grande quantidade de fotos de Hajj.

Algumas fotografias tiradas pelo fotógrafo estão em galerias de fotos de grandes jornais. O jornal brasileiro Folha de S. Paulo, por exemplo, mantém na sua galeria de fotos da guerra, algumas fotos do libanês.

A agência Reuters removeu da sua base de dados cerca de 920 fotografias de Adnan Hajj. A agência disse que a medida foi preventiva e que não significa necessariamente que todas as 920 fotos foram manipuladas. [6]

Referências