Divulgação de pesquisas eleitorais é questionada por especialistas

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15 de junho de 2016

São Paulo, São Paulo, Brasil — ,

Em época de eleições, pesquisas de intenção de voto tornam-se algo rotineiro. Consequentemente, matérias abordando esses dados em diferentes mídias e veículos também. As pesquisas surgiram no Brasil no período da redemocratização, assumindo um papel importante no cenário político e na cobertura da imprensa. Apesar de serem consideradas um elemento fundamental para a democracia, opiniões divergem, principalmente, em relação ao seu método de realização e a maneira como esses dados, posteriormente, são divulgados.

As primeiras eleições em que as pesquisas tiveram um papel importante foram em 1982, conforme conta o artigo “Mídia, eleições e pesquisa de opinião no Brasil”, de Flávia Biroli, Luis Felipe Miguel e Fernanda Ferreira Mota. Em Santa Catarina, por exemplo, a revista Veja, na véspera da eleição, mostrou, de acordo com dados do instituto de pesquisas Gallup, que o candidato a governador Esperidião Amin estaria 24 pontos percentuais à frente de Jaison Barreto. No resultado final, Amin teve uma vantagem menor que 0,8 pontos. A oposição denunciou o caso, dizendo que os dados foram manipulados para legitimar a fraude na contagem de votos.

Desde então, leis e resoluções na legislação brasileira foram formuladas para o controle de registro e divulgação das pesquisas. Na Resolução nº 20.950, de 2001, por exemplo, o artigo nº 6 diz: “na divulgação dos resultados da pesquisa, serão informados, obrigatoriamente, o período da realização da coleta de dados e as respectivas margens de erro e o nome de quem a contratou e da entidade ou empresa que a realizou”. Essa foi a primeira vez em que se exigiu que essas informações fossem divulgadas com os dados da pesquisa.

O mesmo artigo apresenta uma tabela com o número de pesquisas publicadas pelos jornais diários nos três meses que antecederam as eleições presidenciais entre 1989 e 2010. Na Folha de S.Paulo, o maior número de pesquisas divulgadas foi em 2002, com 123, enquanto o Estado de S.Paulo divulgou no mesmo ano 26 e O Globo, 35. No total, em seis eleições, foram 906 pesquisas noticiadas, sendo que 412 estavam na primeira página, mostrando o peso desses dados na mídia. Sérgio Trein, doutor em comunicação sociopolítica, publicitário e consultor de marketing político, ressalta a importância da pesquisa eleitoral: “ela é talvez o principal instrumento de mediação da opinião pública ou, no caso, de um clima de opinião”.

Para o publicitário, o que se vê na divulgação desses dados é uma tendência à polarização. “Existe uma técnica de persuasão que se chama simplificação e consiste em reduzir competições a dois campos. É interessante para a mídia reduzir a pesquisa em dois campos, como se fosse qualquer outro cenário: são dois clubes, são duas marcas de refrigerante, etc. É mais fácil, digamos, para o consumidor do produto político, o eleitor, que já está acostumado à polaridade”, afirma Sérgio.

Pode-se retomar, assim, o conceito de agenda-setting formulado por Maxwell McCombs e Donald Shaw, em que a mídia pauta a opinião pública. A escolha de dar destaque ou colocar como coadjuvante uma informação acaba por determinar o que será considerado importante pelos consumidores de notícia, o que estará em suas conversas. Sérgio Trein lembra, durante a entrevista, como na pesquisa eleitoral o terceiro lugar está “morto”. Logo, o modo como a imprensa divulga os dados, os polarizando, legitima essa ideia.

Mas além de uma polarização, interesses particulares e a arquitetura da informação podem acabar distorcendo os dados das pesquisas, dando a ideia de manipulação e corroborando com interesses particulares dentro dos veículos. Mesmo com as resoluções que pretendem criar limites e otimizar a divulgação dos dados, Sérgio afirma que a imprensa não deixa claro o modo como são realizadas as pesquisas. “Junto aos resultados, deveria ser exposto também o contexto, ou seja, o que aconteceu naquele período específico. A forma como a mídia trata esses dados não dá chances de analisar crescimento ou queda de números, por exemplo”, explica.

Genilda Alves de Souza, formada em psicologia, mestre em comunicação e professora da disciplina de Estatística e Análise de Dados na Faculdade Cásper Líbero, fala sobre como as pesquisas deveriam ser noticiadas na mídia: “você tem que divulgar todo resultado. Você não pode usar elementos gráficos que levem a uma interpretação equivocada do dado, isso é dizer aquilo o que o dado não diz. Porque você quer ressaltar um ou outro resultado. Quando você dá todas as informações, mas, principalmente, divulga o dado e explica a conclusão à qual ele pode levar, essa é a melhor maneira de trabalhar com resultados de pesquisa, sejam elas quais forem, em particular a eleitoral”.

Ambos os especialistas pontuam como detalhes gráficos e textuais podem ressignificar os dados, não os apresentando como um todo. “A pesquisa eleitoral já aparece acompanhada de uma vinheta, em um lugar de destaque, que não é comum da maior parte das notícias cotidianas”, lembra Sérgio. Desde a cor escolhida até a manchete influencia na maneira como esse dado será recebido e interpretado. “É uma obrigação apresentar o conjunto dos dados e, na maioria das vezes, não se faz isso. Isso é uma forma de manipulação, se faz um recorte da informação estatística de acordo com o interesse que tenha o veículo de mídia”, ressalta Genilda.

Dentro desse panorama, encontramos duas visões distintas: há quem não considere as pesquisas um problema em si e quem acredite que os métodos são falhos. Sérgio Trein crê que o cerne da questão esteja no distanciamento político das pessoas o que, consequentemente, faz com que as próprias pesquisas eleitorais se fechem dentro do primeiro e segundo lugar. “É isso que importa para as pessoas: se ela não vai votar nesse, que está à frente, ela vai votar naquele outro que está um pouco atrás”, o publicitário ressalta.

Genilda, por sua vez, critica a forma como os dados são expostos e crê que o problema mora na manipulação midiática. Para explicar a questão, ela dá exemplos sobre como essa alteração de significados pode se dar, especialmente, por meio da linguagem visual - técnica que grandes meios de comunicação conhecem muito bem. “Você pode fazer essa manipulação com gráficos, cores, manchetes. Você coloca um título em uma matéria que ressalta só uma parte do resultado estatístico e dá destaque na imagem justamente para o número que interessa. Isso é por si só uma manipulação. Você não pode usar elementos gráficos que levem a uma interpretação equivocada do dado, isso é dizer aquilo o que o dado não diz”.

Em relação à mídia, porém, Sérgio e Genilda concordam. “Óbvio que a mídia vai dar um tratamento melhor ou pior para aquele candidato que se mostrar mais "palatável", digamos, aos seus próprios interesses como empresa. Então a mídia acaba dando destaque, em alguns aspectos, para a pesquisa, ou seja, para, por exemplo, algum dado que possa ser de alguma maneira mais persuasivo, inclusive ela faz isso com análise de especialistas”, explica o publicitário. Ele destaca ainda a importância que os telejornais dão à divulgação dos números, dedicando a esse momento, muitas vezes, até uma vinheta própria. “A própria mídia acaba vendendo patrocínio para cadernos eleitorais e, consequentemente, para a divulgação das pesquisas. Ou seja, isso se torna um produto midiático”, conclui.

A ausência da “cultura política” que Sérgio acredita permear o eleitorado brasileiro, se manifesta também na falta de conhecimento em relação ao que ele acredita que deveria ser o real objetivo das pesquisas, isto é, analisar um clima de opinião sem deixar de lado o recorte temporal. É aí que surge o que conhecemos por margem de erro: “Toda pesquisa que inclui pessoas apresenta erro. Por isso há a margem, que é citada, mas ignorada. Já que se quer tratar o dado como verdade, vamos tratá-lo como o que ele é: algo que referencia o passado, que representa o momento em que a pesquisa foi feita”. Na crítica do especialista, a mídia e os eleitores, por consequência, entendem o resultado das pesquisas como uma previsão para o futuro e não como uma análise de um momento passado – o momento em que as perguntas foram respondidas. Essa lógica ignora completamente fatores externos como denúncias contra os candidatos ou o efeito das propagandas eleitorais.

Fontes

José Ferreira de Carvalho. O Erro da Margem de ErroFolha de S. Paulo, 18 de outubro de 2014
Ney Figueiredo. Instrumento a Favor da DemocraciaFolha de S. Paulo, 18 de outubro de 2014
Sérgio Trein. O duplo papel das pesquisas eleitorais: eleitora de quem está na frente, adversária de quem está atrásTrabalho apresentado ao NP 03 – Publicidade, Propaganda e Marketing, do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom, 2005
Genilda Alves de Souza. A influência das pesquisas eleitorais na decisão de voto nas eleições presidenciais de 2010Observatório de Mídia da Faculdade Cásper Líbero, 9 de setembro de 2012

Bibliografia

BIROLI, Flávia, Luis Felipe MIGUEL e Fernanda Ferreira MOTA. "Mídia, eleições e pesquisas de opinião no Brasil (1989-2010): um mapeamento da presença das pesquisas na cobertura eleitoral". Revista Compolítica, vol. 1, nº 1. Rio de Janeiro, 2011, pp. 45-66.