COVID-19: estudo da USP indica que medicamento para crises de gota diminui inflamação pulmonar

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23 de agosto de 2020

A colchicina, um medicamento utilizado há décadas para tratar crises de gota, combateu a infecção pulmonar e diminuiu o tempo de hospitalização de pacientes com as formas moderada e grave de Covid-19. Um estudo clínico randomizado e duplo-cego coordenado pelo Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) da USP e realizado no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP entre abril e julho deste ano. Os resultados do estudo foram apresentados em agosto na plataforma MedxRiv, que disponibiliza artigos ainda não foi revisado por outros cientistas.

Foram incluídos 38 pacientes, obrigatoriamente internados no HC e necessitando de oxigenação suplementar. Três deles precisaram ser transferidos para a UTI e não chegaram à fase final. Os 35 voluntários foram divididos em dois grupos: além de receberem os medicamentos do protocolo institucional de tratamento, metade tomou colchicina e a outra metade, placebo. Nesse tipo de estudo, chamado duplo-cego, nem os médicos, nem os pacientes sabem a que grupo cada voluntário pertence.

“No braço da colchicina, boa parte dos pacientes tiveram alta após seis dias de internação, contra oito dias no grupo placebo”, explica ao Jornal da USP Renê de Oliveira, pesquisador associado do CRID e coordenador da pesquisa. “Além disso, os voluntários tratados com a droga em teste necessitaram de apenas três dia de oxigenoterapia, contra até dez dias no grupo placebo.”

“Apesar de acreditarmos desde o início que haveria benefícios, os resultados nos surpreenderam”, afirma Paulo Louzada Junior, pesquisador do CRID e professor da FMRP. “É importante ressaltar que o fármaco não foi indicado como preventivo ou para tratar formas mais leves de covid-19. Se ela funciona nesses casos, não temos esse dado.”

Mecanismo de ação

A gota é caracterizada por ataques recorrentes de artrite aguda provocadas pelo depósito de cristais de ácido úrico nas articulações, causando inflamação, dor e inchaço. Com isso, há o recrutamento, pelo sistema imune, de células de defesa, como os neutrófilos, que chegam para combater o processo como um todo. Há também um aumento de citocinas inflamatórias no sangue, que aceleram a inflamação. Neste caso, a colchicina é administrada para desinflamar e impedir que mais neutrófilos cheguem aos tecidos.

“Com a Covid-19, algo parecido acontece nos pulmões: uma invasão das células do sistema imune e um aumento das interleucinas (IL )1-β, IL-6, IL-18, além do fator de necrose tumoral (TNF)”, explica Oliveira. Observa-se também uma elevação nos níveis da proteína C-reativa, um marcador de inflamação sistêmica. “Por ser uma droga segura, bem tolerada e com poucos efeitos colaterais, decidimos investigar se ela teria um efeito benéfico para pacientes com a doença.”

Para ser incluído no estudo, o critério principal era ser um paciente nas fases moderada ou grave e que necessitasse de internação por causa de uma pneumopatia induzida pelo covid-19. “Do grupo da colchicina, o paciente que ficou mais tempo internado foi 12 dias, mas boa parte deles recebeu alta depois de seis dias”, explica Oliveira. “Além disso, eles deixaram de utilizar oxigênio, em média, em três dias antes do grupo placebo.” Houve, também, a redução nos níveis da proteína C-reativa nos pacientes que utilizaram a colchicina.

Dos 35 pacientes que concluíram o estudo (18 do grupo placebo e 17 do grupo tratado com colchicina) poucos tiveram efeitos adversos. “O efeito colateral mais comum observado em quem tomou colchicina foi a diarreia”, relata Louzada Junior. “Isso já era esperado, porque também acomete pacientes que utilizam a droga para tratar a gota.”

Redução de gastos

A diminuição no tempo total de internação pode trazer muitos benefícios ao sistema de saúde brasileiro, principalmente o público. “Cada paciente em enfermaria custa cerca de R$ 1 mil reais e na UTI, o valor aumenta em seis vezes. Isso sem contar os insumos utilizados”, explica Oliveira.

Louzada Junior falou ao Jornal da USP sobre outro desfecho positivo. “Tivemos uma maior rotatividade de leitos, o que nos permitiu atender mais pacientes.”

Para André Siqueira, infectologista e pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, o fato de esse estudo ser randomizado e duplo-cego elimina os possíveis vieses de seleção e observação que podem acontecer em estudos abertos. “De fato, é um estudo pequeno, mas já aponta para necessidade de organizar uma pesquisa com mais participantes”. E enfatiza. “Não adianta começar um estudo gigantesco com algo que já de saída não tem nenhuma evidência positiva.”

Os cientistas do CRID disseram ao Jornal da USP que, daqui a dois meses, vão prosseguir com a pesquisa. “Enviaremos um pedido de autorização à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e, assim que aprovado, queremos recrutar cerca de 200 pacientes”, finaliza Oliveira.

Colchicina pelo mundo

Na Itália, um estudo semelhante ao da USP foi realizado em março deste ano com 140 pacientes infectados com o SARS-CoV-2. Eles receberam colchicina e foram comparados a outros 122 que receberam somente o protocolo padrão de tratamento. Os ensaios clínicos foram abertos. Além de obterem resultados bem parecidos, eles chegaram à conclusão que a taxa de sobrevivência do grupo que tomou colchicina foi maior quando comparada à do grupo controle. Mas para o pesquisador da Fiocruz, é preciso analisar com cuidado os resultados. “Se os grupos não são cegos, podemos ter vieses, o que pode comprometer o resultado final.”

Já na Grécia, os cientistas optaram por avaliar os efeitos da colchicina nos parâmetros cardiovasculares de 105 pacientes com covid-19. Estudos anteriores já mostraram que há uma recuperação mais rápida no pós-infarto, ou seja as propriedades anti-inflamatórias podem ter benefícios em outras condições que não sejam reumatológicas. “É importante termos essa diversidade porque, como nenhum deles é muito grande, podemos pensar em estudos maiores, de preferência multicêntricos, que consigam avaliar os efeitos da colchicina e identificar tanto para qual grupo de indivíduos ela pode ter um efeito melhor “, finaliza Siqueira.

Fonte

Domínio Público Esta notícia é uma transcrição parcial ou total do Jornal da Universidade de São Paulo.
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