Brasileiro compra mais alimentos no supermercado que na feira. Por que isso é um problema?
7 de julho de 2025
A oferta de alimentos ultraprocessados acompanha diversas pesquisas que associam o excesso do consumo a riscos de doenças cardiovasculares, de declínio cognitivo, e até de morte precoce. Para enfrentar seu consumo excessivo, Marcos Anderson Lucas da Silva, doutorando na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, propôs um novo sistema de classificação de locais de aquisição de alimentos com base no Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB), denominado Locais-Nova, em artigo publicado na Revista do SUS. Os dados mostram que os supermercados são os distribuidores mais acessados no Brasil (68%), seguidos por pequenos mercados, feiras livres e padarias.
Embora também sejam fontes de alimentos saudáveis, a busca pelo supermercado como abastecedor único de alimentos pode levar a uma competição dos in natura ou minimamente processados diante da abundância de ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos, entre outros. “Pensamos os ambientes alimentares desses locais no Brasil como uma parte fundamental também da promoção da saúde para a alimentação porque é neles que adquirimos alimentos. Entendemos que a baixa disponibilidade de alimentos saudáveis nesses espaços também pode influenciar nossas escolhas“, afirma o pesquisador ao Jornal da USP.
O estudo do mapeamento de desertos alimentares (áreas em que alimentos saudáveis e frescos são limitados ou inexistentes) produzido pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN) em 2018, apresentou a primeira classificação dos locais de aquisição de alimentos no Brasil. No entanto, o pesquisador percebeu fragilidades na nomenclatura de alguns espaços; em especial, nos supermercados, mercearias e padarias, que foram classificados como “mistos” (onde há predominância de aquisição de preparações culinárias ou alimentos processados, ou onde não há predominância de aquisição de alimentos in natura/ minimamente processados, nem de alimentos ultraprocessados). Os estabelecimentos dessa categoria acabavam sendo pouco utilizados nos estudos de ambiente alimentar, por ser um grupo muito abrangente, mas não muito compreensível.
- Diferenças e semelhanças regionais
Em todas as regiões, as fontes de alimentos in natura ou minimamente processados e de ingredientes culinários foram: supermercados, hortifrutigranjeiros, açougues, ambulantes de alimentos, restaurantes e peixarias. Apesar disso, as particularidades econômicas e culturais de cada região influenciam nas dinâmicas de acesso aos alimentos. “As regiões Norte e Nordeste têm um maior consumo de alimentos in natura ou minimamente processados que as regiões Sul e Sudeste. Por exemplo, o Norte tem a maior diversidade de alimentos, e alguns que participam mais da dieta como o açaí e a farinha”, detalha Silva.
Essas características particulares podem ter relação com o poder aquisitivo, conforme o pesquisador: “Observamos que quanto maior a renda, maior a aquisição de ultraprocessados. A região Sul, Sudeste, que são regiões de alta renda, acabam também adquirindo mais ultraprocessados e um padrão menor de aquisição de alimentos saudáveis”, continua. As diferenças também são percebidas nas diversas fontes de alimentos processados de cada região.
No Sul, havia menos fontes desse grupo de alimentos processados; representadas por padarias e confeitarias e varejista de laticínios e frios. No Norte, havia bastante dessas mesmas fontes. No Nordeste, além dessas destacadas no Norte e Sul, também foram incluídas as cantinas. No Sudeste, além das anteriormente citadas, destacam-se ambulantes de alimentos, bares e lojas de conveniência. No Centro-Oeste, foram apenas padarias e confeitarias, ambulantes de alimentos, lojas de conveniência e varejistas de laticínios e frios.
Em todas as regiões, supermercados, minimercados e mercearias, padarias e confeitarias, lanchonetes, bares, lojas de conveniência, bombonieres, vendas de alimentos congelados e prontos para consumo foram fontes de ultraprocessados. No Norte e no Centro-Oeste, varejistas de laticínios e frios também foram incluídos nessa categoria. O único dado padrão para todas as regiões é de que os supermercados são os locais de aquisição de alimentos mais acessados no País. Dentro desses, os alimentos são frequentemente promovidos por meio de propaganda agressiva e promoções atraentes, conforme Silva, o que pode prejudicar escolhas alimentares mais saudáveis.
- Ambiente alimentar
Apesar do apontamento sobre o ambiente alimentar de supermercados, locais indicados positivamente no artigo, como as feiras livres, enfrentam embates históricos com esses compradores atacadistas em relação ao preço como estratégias de promoções em dias específicos das vendas ao ar livre. “As feiras são importantes por oferecer alimentos sazonais e regionais, além de serem espaços culturais. É necessário aumentar a disponibilidade e acessibilidade, especialmente em áreas periféricas, e oferecer horários alternativos. O poder público pode atuar nesse sentido”, continua Anderson Lucas Silva.
Fontes
[editar | editar código]- ((pt)) Jean Silva. Brasileiro compra mais alimentos no supermercado que na feira
. Por que isso é um problema? — Jornal da USP, 7 de julho de 2025

