Documentos dizem que partido do presidente brasileiro recebeu dinheiro das FARC

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15 de março de 2005

Brasil — Documentos da agência brasileira de inteligência Abin dizem que o Partido dos Trabalhadores recebeu uma doação de 5 milhões de dólares para a campanha política de seus candidatos em 2002 do grupo armado comunista colombiano Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP). A informação foi divulgada numa reportagem de capa chamada "Os tentáculos da FARC no Brasil", da revista brasileira Veja, que circula esta semana.

Bandeira símbolo do PT.

Segundo a revista, seus repórteres tiveram acesso a documentos da Abin que descrevem as relações entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o movimento guerrilheiro comunista armado FARC.

O principal documento, número 0095/3100 de 25 de abril de 2002, diz que houve no dia 13 de abril de 2002 numa chácara perto de Brasília, uma reunião entre membros de partido de esquerda do PT e da FARC. Na reunião, que durou 6 horas, havia aproximadamente 30 pessoas, entre elas o padre Olivério Medina, um dos representantes das FARC no Brasil. Na reunião estava presente também um agente disfarçado da Abin, que anotou toda a reunião.

Segundo relato do agente, durante a reunião o padre Medina anunciou que iria fazer a doação de 5 milhões de dólares para a campanha eleitoral de políticos de sua escolha.

A agência Abin tem seis documentos que descrevem as relações entre o PT e as FARC. Dentre os seis documentos, 3 deles dizem explicitamente que houve a doação em dinheiro de 5 milhões de dólares para a campanha política de candidatos do PT. O dinheiro viria de Tinidad e Tobago e chegaria até 300 empresários brasileiros que fariam a distribuição da quantia entre os comitês do partido.

Outro documento da Abin diz que a funcionária da Câmara dos Deputados e ex-militante do PCdoB, Maria das Graças da Silva, considerada amiga pessoal do comandante das FARC Maurício, seria responsável pelos encontros para acertar a distribuição do dinheiro. Maria disse à reportagem da revista Veja:"Conheço ele [sobre o comandante das FARC] sim, e daí? Não articulei encontro nenhum.".

Uma conversa com três agentes da Abin e outros esquerdistas corroboram a tese de que houve encontros entre as FARC e membros do PT.

O militante Antonio Viana que esteve na reunião disse:"Falamos de tudo, menos de dinheiro".

Há algum tempo atrás, o deputado Alberto Fraga (PTB) soube da investigação da Abin e denunciou o esquema num discurso feito na Câmera dos Deputados. Ele tentou abrir uma comissão para investigar o caso. Todavia ele não conseguiu apoio para iniciar a comissão. O deputado do PT Luis Eduardo Grenhalg disse que ele poderia ser processado pelo governo se continuasse a comentar o assunto, segundo Fraga. Grenhalg disse que apenas sugeriu para Fraga tomar cuidado para não divulgar informações que não eram verdadeiras.

Presidente da Venezuela Hugo Chavez e Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos governos foram criticados devido ao relacionamento deles com as FARC (Foto:Marcello/ABr).

O candidato José Serra (PSDB) tentou mencionar a relação do PT com as FARC, durante a campanha presidencial de 2002. Todavia ele foi punido pelo tribunal eleitoral.

O Partido dos Trabalhadores emitiu uma nota oficial assinada pelo presidente nacional do partido José Genoino repudiando a reportagem da revista e negando todos os factos apresentados. Parte da nota diz:

(...)reiteramos que o Partido dos Trabalhadores não tem e jamais teve relações financeiras com as Farc. Tampouco apóia, no país vizinho, qualquer saída para a longa situação de beligerância vivida pelos colombianos que não esteja baseada em um acordo democrático, pacífico e constitucional. O PT tem posição histórica contra o terrorismo de Estado ou de grupos armados. No mais, são inumeráveis as provas de que a política do PT é marcada pelo respeito à auto-determinação dos povos e à soberania das nações, a partir de uma política de não ingerência nos assuntos internos de cada país. Em nenhuma hipótese aceitaríamos, portanto, que nossa vida política sofresse a interferência de governos ou grupos estrangeiros de qualquer origem.

A nota diz ainda que a reportagem é irresponsável, que fornece factos ao leitor sem evidências ou provas sustentáveis. Ela ainda diz que a reportagem da revista é desmentida quando afirma definitivamente que não encontrou indícios sólidos para afirmar que 5 milhões de dólares saíram das FARC e chegaram ao PT.

A nota afirma que não é novidade o fato de o partido ser vítima da exploração desse tema. Que durante as eleições presidenciais de 2002 o candidato do PSDB José Serra seguiu esse mesmo caminho em sua propaganda na televisão e foi punido pela justiça eleitoral porque sua denúncia era vazia. De acordo com a nota, os documentos datam de 25 de abril de 2002, época em que o Presidente da República era o senhor Fernando Henrique Cardoso e muitos espiões andavam como serpentes pelo país à procura de situações que pudessem impedir a livre vontade do povo brasileiro de votar por mudanças.

Esta é a segunda vez, este ano, que um governo sulamericano é criticado por manter relações com as FARC. No mês passado, Colômbia e Venezuela tiveram suas relações seriamente abaladas, depois da prisão do chanceler das FARC, Rodrigo Granda. A Colômbia acusou a Venezuela de fornecer ajuda e proteção às FARC. A Venezuela acusou a Colômbia de ferir sua soberania. Os dois países somente entraram em acordo após a intervenção do presidente de Cuba Fidel Castro.

Esta também é a segunda vez, em menos de um mês, que um partido político sulamericano é acusado de envolvimento com as FARC. Em fevereiro, autoridades paraguaias descobriram o corpo de Cecilia Cubas Gusinky, 31 anos, filha seqüestrada do ex-presidente do Paraguai Raul Cubas num buraco em Ñemby, 29 km da capital Assunção. Membros do partido Pátria Livre moravam no local e são considerados os principais suspeitos. Osmar Martínez., que pertence ao partido, foi preso. Segundo a polícia ele vinha trocando emails com o chanceler das FARC Rodrigo Granda. Martinez disse que mantém uma "relação fraternal" com as FARC.


A presença das FARC no Brasil

Uma nota do Partido dos Trabalhadores, datada de 16 de Fevereio de 2002 chamada "A verdade sobre sobre a Colômbia e as FARC - e o PT" tentar esclarecer o relacionamento do partido com as FARC. Diz parte da nota:

O Partido dos Trabalhadores não tem vínculo algum com as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (FARC). Junto com uma centena de partidos e movimentos de esquerda da América Latina (entre os quais o PT, o PSB, o PPS e o PDT brasileiros), as FARC fazem parte do Foro de São Paulo. No Foro, convivem organizações de perfil político ideológico bastante distinto. O Partido Socialista Chileno do presidente Ricardo Lagos, por exemplo, participou de algumas reuniões. Todas estas organizações não estão unidas por nenhum laço orgânico, pois o Foro é, justamente, um foro de debate, e não uma estrutura de coordenação política internacional. No passado, no entanto, houve contatos de dirigentes das FARC com políticos brasileiros.

A nota critica a decisão do governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, pelo fato de ele não reconheceu diplomaticamente a guerrilha colombiana das FARC. Segundo a nota, tal decisão não seria correta porque as FARC poderiam algum dia derrotar o governo da Colômbia. A nota critica também a ajuda do governo dos Estados Unidos da América Colômbia no combate ao narcotráfico e afirma que com ela o conflito tende a ficar mais violento e durar mais. Em relação às drogas, a nota afirma que o PT é enfático no combate ao narcotráfico. Todavia ele diz haver "informações contraditórias" referentes ao envolvimento das FARC com o narcotráfico.

O PT nega-se a classificar as FARC como organização terrorista. O partido justifica sua decisão dizendo que assim pode atuar como mediador no conflito.

Raul Reyes, comandante das FARC, descreveu parte das relações do movimento com o partido durante uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo, em 24 de agosto de 2003 [1]. Na entrevista ele disse que conheceu o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pela primeira vez em San Salvador durante o Foro de São Paulo. O comandante das FARC afirma que os principais contatos da organização no Brasil estão no Partido dos Trabalhadores (PT) e no Movimento dos Sem Terra (MST), que também tem contato com intelectuais, padres da Igreja Católica, historiadores e jornalistas, entre eles Frei Beto (ex-acessor de Lula) e Emir Sader (escritor). Na reportagem também disse que é falsa a notícia de que as FARC produzem cocaína.

O traficante brasileiro Luiz Fernando da Costa, mais conhecido como Fernandinho Beira-Mar, foi capturado pelo exército colombiano em abril de 2001 próximo à região da Tríplice Fronteira e preso na cidade de Maranduba, na Colômbia. Com ele também foi preso um dos líderes das FARC, Acacio Medina, conhecido como Nego Acácio. [2]

Em Brasília, Beira-Mar foi interrogado por agentes da DEA e falou sobre suas relações com a guerrilha colombiana. A gravação da conversa foi peça importante que permitiu ao governo de Estados Unidos da América solicitar a extradição de três guerrilheiros das FARC e outros três narcotraficantes brasileiros. Os detalhes desse encontro foram publicados na revista colombiana Câmbio. [3], [4], [5]

Segundo Beira-Mar ele comprava 600 quilos de coca, por semana, por dois milhões de pesos, de camponeses. Pagava também às FARC um milhão de pesos por cada quilo processado. Disse também que fornecia armas à guerrilha colombiana.

Representantes das FARC atuam em escolas, sindicatos e universidades brasileiras e divulgam o movimento revolucionário [6].

Alguns desses encontros são organizados por grupos de esquerda. Um dos mais ativos é o "Comitê Permanente de Solidariedade aos Povos em Luta" de São Paulo. Segundo Magno de Carvalho, articulador do grupo e presidente do Sindicato dos Trabalhadores da USP, já foram organidos mais de 40 palestras na capital São Paulo e na região metropolitana. [7]

Em agosto de 2001, representantes das FARC, participaram de encontro com membros da Juventude Socialista do PDT [8].

Em 20 de março de 2002, em Ribeirão Preto foi criado um comitê pró-FARC pelo então secretário de esportes Leopoldo Paulino (PSB) no governo do então prefeito Antônio Palocci Filho (PT), que é atualmente ministro da economia do governo brasileiro [9].

Paulino disse para repórteres do canal de televisão brasileiro EPTV que o comitê não coletava fundos para a guerrilha colombiana: "O comitê é de solidariedade com os povos latino-americanos, de apoio engajado e militante, até porque acredito que as Farc não precisem de recursos". Ele também acrescentou:"Minha relação é de um sentimento de profunda simpatia por aquele movimento socialista, guerrilheiro, que luta contra os Estados Unidos." [10]

Em 2001, comandantes das FARC foram recebidos em Brasil pelo então governador do Rio Grande do Sul Olivio Dutra (PT) [11], [12]. Os líderes das FARC foram honrados e aclamados durante o I Foro Social Mundial. Olívido Dutra é atualmente Ministro das Cidades de Lula. Na ocasião, deputados da assembléia do Estado de Rio Grande do Sul protestaram. [13]

Imprensa brasileira

A imprensa brasileira já publicou algumas reportagens que falam sobre a relação entre as FARC e o Partido dos Trabalhadores (PT). Nenhum dessas reportagens anteriores, no entanto, foi tão contundente como a recente reportagem publicada pela revista Veja, esta semana.

Não obstante, a revista Veja, sobre o envolvimento do PT com as FARC, declara que "não encontrou evidências fortes para provar que o PT recebeu dinheiro das FARC". A revista também não fala sobre a participação das FARC no Foro de São Paulo, sobre a atuação da organização em Brasil, nem descreve outros encontros de lideranças do PT com membros das FARC.

As FARC participam do Foro de São Paulo, organização criada pelo atual presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e pelo presidente cubano Fidel Castro, desde 1990. Membros das FARC se encontram regularmente com membros do PT e de outros partidos de esquerda há mais de 12 anos.

A colaboração é comprovada também pela revista revolucionária América Livre, cujo conselho editorial é formado por importantes militantes do PT e da esquerda brasileiros, entre eles: Luis Eduardo Greenhalgh (PT), Fernando Morales, Emir Sader, Roberto Drummond, Gilberto Carvalho, Leonardo Boff, Eric Nepomuceno, João Pedro Stédile (líder do MST), Chico Buarque de Hollanda (cantor e compositor), Rubens Paolucci Jr, entre outros.

Também faz parte do conselho editorial da revista o comandante das FARC Manuel Marulanda Vélez (Tirofijo). O presidente do conselho editorial da revista foi Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, ex-assessor especial do presidente Lula [14].

Um assunto pouco mencionado pelos meios de comunicação brasileiros é a atuação do Foro de São Paulo. A reportagem da revista Veja desta semana menciona "um debate com partidos políticos e organizações sociais de América Latina e de Caribe para discutir os efeitos da queda do muro de Berlim". Mas ela nunca menciona o nome do encontro: Foro de São Paulo. Raramente o nome Foro de São Paulo é mencionado por alguma organização informativa brasileira.

Alguns jornalistas já chegaram a negar a existência do Foro de São Paulo. Luiz Felipe de Alencastro já escreveu artigos para a revista Veja e é professor de História do Brasil na Universidade de Paris. Em 30 de outubro de 2002, durante uma palestra para o Council on Foreign Relations (CFR) em Washington, um participante perguntou a Alencastro sobre o Foro de São Paulo. Alencastro respondeu:"É interessante. Veja você, porque eu vivo, quero dizer, eu vivo agora em França. Mas eu vivi no Brasil durante 12 anos. E eu nunca ouvi falar desse Foro de São Paulo." [15]

É possível encontrar facilmente documentos que comprovam a existência do Foro de São Paulo. [16], [17], [18].

O próprio Partido dos Trabalhadores menciona o Foro de São Paulo em seus documentos. [19].

No website da Fundação Perseu Abramo, organização com laços com o PT, encontra-se o discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro do Foro de São Paulo em Havana, Cuba [20].

Em 2004, um grupo de jornalistas enviou uma proposta ao presidente Lula para solicitar a criação de um órgão fiscalizador que controlasse a atuação da imprensa brasileira. Este órgão teria o poder, segundo a proposta, de censurar trabalhos jornalísticos considerados inapropriados e de cassar o registro profissional de jornalistas. [21], [22], [23], [24].

A proposta foi considerada autoritária por outros jornalistas que protestaram contra ela enfaticamente. A lei não obteve apoio suficente para a sua criação, apesar da pressão exercida pelo governo e por alguns setores da imprensa que apoiaram a proposta. [25].

Uma das críticas feitas contra a proposta foi o fato de muitos jornalistas que a apoiaram — e que iriam trabalhar no órgão fiscalizador — serem membros ou simpatizantes do PT ou do PCdoB.

Fontes